terça-feira, 29 de novembro de 2011

DABARDA MAJAR - A SANTA REZA



Altar de Santa Sara - Ilha Comprida, 03 de
Novembro de 2011



Bem, queridos leitores, como obtive a licença de todos os comandes do “Cangré Kumpania Fellahu”, filiado e vinculado ao Alcatina Covine-RP, venho lhes presentear e tornar público, uma entre as demais Liturgias Sagradas que é empregada na Avém Vourdakie Rromáh ou Tradicional Roda Cigana, do Cangré acima citado, na certeza que nossa Companhia se nutra da honra que vive na forja do primeiro ofício do cigano, Bahranon!

Possa Bel Karrano favorecer seu povo! Que Duvela Gana, Krodo, Tubalo e nossos Mulê Romá vos abençoe em nome de Santa Sara Kali!

Baksheesh!

O vortako tribulame, ane kelimast, ano nasfalimos, ano thiorrimos tai ane marthia!

Cléber


LADAINHA DOS SANTOS DE SANTA SARA NEGRA



Divindades ancestrais, que se elevam no Oriente e habitam atrás dos mantos dos Divos Mortais, tende piedade de nós.

Senhores das peles escuras, tende piedade de nós. 

Jóshua Chrestos, tende piedade de nós. 
Senhor do Sol, tende piedade de nós.

José de Arimatéia, tende piedade de nós.
Onipotência de Pethit Rhône, tende piedade de nós.
Amo de Saintes Maries de La Mer, tende piedade de nós.
Túbalo, Senhor das transformações, tende piedade de nós.

Maria Jacobina, tende piedade de nós.
Maria Salomé, tende piedade de nós.
Maria Jacobé, tende piedade de nós.
Maria Madalena, tende piedade de nós.

Ama Sara, tende compaixão por nós.
Arca da união, rogai por nós. 

Porta do céu, rogai por nós. 
Estrela da manhã, rogai por nós. 
Curadora dos enfermos, rogai por nós. 
Refúgio dos julgados, rogai por nós. 
Consoladora dos aflitos, rogai por nós. 
Auxílio dos ciganos, rogai por nós. 

Lua Vagante, rogai por nós.
Astro Errante, rogai por nós.
Jazigo dos marginalizados, rogai por nós.
Amparo Romani, velai por nós.

Todos os Espíritos da santidade Rromáh, que transmitiram sabedoria do Sangue-Rom, rogai por nós.

Ana Rita, rogai por nós
Carmem, rogai por nós
Carmencita, rogai por nós
Ciganinha Das Rosas, rogai por nós
Dolores, rogai por nós
Elena, rogai por nós
Esmeralda, rogai por nós.
Irina, rogai por nós
Madalena, rogai por nós
Maria, rogai por nós
Mariana, rogai por nós
Milena, rogai por nós
Natascha, rogai por nós
Rita, rogai por nós
Salomé, rogai por nós
Sarah, rogai por nós
Sulamita, rogai por nós
Yasmin, rogai por nós

Artêmio, rogai por nós
Juan Martin, rogai por nós
Manolo, rogai por nós
Pablo, rogai por nós
Ramarasham, rogai por nós
Ramirez, rogai por nós
Ramón, rogai por nós
Sandro, rogai por nós
Sávio, rogai por nós
Silvanus, rogai por nós
Wladimir, rogai por nós
Yago, rogai por nós.

Sede propícia, ouça-nos Patrona Sara Kali, rogai por nós.

Vós que sobreviveu a tudo, defendei-nos,
Da invídia, da arrogância e do aborrecimento,
Da soberba, da altanaria e afoitamento,
Da presunção e da petulância,
Da hipocrisia, e do deboche,
Do egoísmo e ganância,
Da senembi e má vontade,
Da derrota, da pobreza e do fracasso,
Da desesperança, tortura e desespero,
Da auto-piedade, auto-rejeição e auto-condenação,
Dos complexos, das doenças e dos problemas de todas as ordens,
Da acusação, anhapa de arcano e avareza,
Da mentira, da culpa e da calúnia,
Da condenação, e das trapaças,
Da desarmonia e da separação,
Da violência e da indignidade,
Dos assaltos, das catástrofes, e das pestes,
Da miséria, das dívidas e do desemprego,
Do medo, da insônia e do pavor,
Dos males físicos, psíquicos e espirituais,
Dos legados contraproducentes de antepassados e dos malefícios,
Da compulsividade do ter, ser e poder,
Das dependências físicas, emocionais e químicas,
Da injustiça, da revolta e da frustração,
Da descrença, desconfiança e falha de fé!
Da morte permanente, da fome e do flagelo, livrai-nos Sara Santa.

Senhora da intuição! Santa Mamiori, abra a nossa mente e os nossos olhos internos. Dê-nos a visão imperativa, o bom entendimento e o bom discurso, assim como a boa interpretação e o bom relacionamento, para todas as mãos e todas as cartas, para todas as coisas viventes.

Santa Sara, nos abençoe. 

Santa Sara, nos acompanhe. 
Santa Sara, ilumine e proteja nossa Tsara.


Todos os nobres descendentes da santidade Rromáh, que legaram o Dom Cigano, rogai por nós.

Filha de Chrestos, rogai por nós. 

Neta de josé, rogai por nós. 

Duvvela Gana, ta Duvel Túbalo, rogai por nós.

Virgem Sara, a respeitada, rogai por nós. 

Virgem Santa, a laudável, rogai por nós. 
Virgem Kali, a poderosa, rogai por nós. 
Virgem Cigana, a clemente, rogai por nós. 
Virgem das Carruagens, a fidedigna, rogai por nós. 


Opcha, minha Santa Sara Kali


Mãe puríssima, rogai por nós. 
Mãe virgínea, rogai por nós. 
Mãe bondosa, rogai por nós. 
Mãe da boa consulta, rogai por nós. 
Mãe dos Zíngaros, rogai por nós. 
Mãe Apostolada, rogai por nós.

Mãe dos Aflitos, rogai por nós.
Mãe Negra, rogai por nós.

Santa Sara, Rosa Dolores e Mamiori, estejam sempre conosco! Rogai por nós.

Rainha dos videntes, rogai por nós. 

Rainha das Sibilas, rogai por nós. 
Rainha dos mártires, rogai por nós. 
Rainha dos confessores, rogai por nós. 
Rainha dos inocentes, rogai por nós. 

Rainha dos andarilhos, rogai por nós.
Rainha dos escravos, rogai por nós.
Rainha dos encantados, rogai por nós.

Charneira de justiça, rogai por nós. 

Sebe de sabedoria, rogai por nós. 
Agente de nosso júbilo, rogai por nós. 
Vaso espiritual, rogai por nós. 

Deusa Negra, rogai por nós.

Todos os santos, anjos e magos da santidade Rromáh, roguem por nós.

São Silvanus, rogai por nós.
São Miguel, rogai por nós. 
São Rafael, rogai por nós. 
São Gabriel, rogai por nós. 
São Auriel, rogai por nós. 
São Baltazar, rogai por nós. 
São Melchior, rogai por nós. 
São Gaspar, rogai por nós. 

Todas as forças do Oriente, rogai por nós. 

Tu ke san pervo icana romli anelumia 

Tu ke biladiato le gajie anassogodi guindiças 
Tu ke daradiato le gajie, tai chudiato 
Anemaria, thie meres bi paiesco tai bocotar 
Janes so si e dar, e bock, thai e duck ano iló 
Thiená mekes murre dusmaia thie açal 
Mandar thai thie bilavelma 
Thie avez murri dukata angral o Dhiel 
Thie dhiesma bar sastimós t
hai 

Thie blagois murró traio 
Thiel diel o Dhiel.


Dalto Chucar Diklô.

Dou-la ni kerava abelar ksouri ni djibe!

Morri Dei Santa Sara.

Del te Avel Amentsa!

Por todas as forças Errantes, Nômades e Expatriadas, nós vos rogamos: Ouça-nos.

Amem * Amem * Amem

Por Sett Ben Qayin


sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O Lobo Ferreiro – Parte 1





“O ferreiro é acima de tudo um trabalhador do ferro, e sua condição de nômade derivada de seu deslocamento contínuo em busca do metal bruto e de encargos de trabalho lhe obriga a entrar em contato com diferentes populações.” – Mircea Eliade.

Dos ofícios ligados à transformação dos metais, o de ferreiro é o mais significativo quanto à importância e a ambivalência dos conteúdos que implica. A forja comporta um aspecto cosmogônico e criador, um aspecto asúrico1, e infernal, enfim, um aspecto iniciático.

As ferramentas do ferreiro comunicam o caráter sagrado. O martelo, o fole, a bigorna, revelam-se como seres animados e arrebatadores. Supõe-se que podem operar por sua própria força mágico-religiosa, sem ajuda do ferreiro. O ferreiro de Togo fala, referindo-se à suas ferramentas, do “martelo e sua família”. Em Angola o martelo é venerado por ser o que forja os instrumentos necessários para a agricultura: tratam como a um príncipe e o mimam como a um menino. Os Ogowe, que não conhecem o ferro e, portanto, não o trabalham, veneram ao fole dos ferreiros das tribos vizinhas. Os Mossengere e os Ha Sakate acreditam que a dignidade do mestre ferreiro se concentra no fole.



O primeiro ferreiro é o Brahmanaspati védico, que forja, ou melhor, solda o mundo. Seu trabalho de força é a constituição do ser a partir do não-ser. A fundição do metal (fundi, e reformai o universo, equivalente do solve et coagula hermético) é uma noção taoísta essencial. O Céu e a Terra são a grande fornalha, e a transformação é o grande fundidor, escreve Tchuang-tse (capítulo 6). Entre os povos montanheses do Vietnã do Sul, a obra da criação é uma obra de ferreiro: Bung toma de um pequeno martelo e forja a terra; depois, usando um martelo curto, forja o céu. Tian, a Terra, e Tum, o Céu, casam-se. Às vezes, o próprio homem é forjado, ou, pelo menos, seus ossos e articulações o são. O ferreiro primordial não é o Criador, ele é seu assistente, seu instrumento, o fabricante da ferramenta divina, ou o organizador do mundo criado.
Tvashtri forja a arma de Indra, que é o raio; assim também, Hephestos (Vulcano dos romanos) forja a de Zeus (Júpiter). Ptá, as de Horus; os anões o martelo de Thor. O engole vento, o machado de Konas; e Juno o martelo de Valéria Luperca – diva dos Stregones Lupinos, avatar divino equivalente à Arádia de Charles Leland.
A arma ou ferramenta cosmogônica, na maior parte das vezes, é o raio, relâmpago ou trovão – símbolos da atividade celeste.



O martelo, herdeiro da tocha dos tempos líticos, converte-se na insígnia dos deuses fortes, os deuses da tempestade.
Assim se torna fácil compreender por que às vezes os deuses das tempestades e da fertilidade agrária são imaginados como deuses ferreiros, como no caso encontrado nos mitos de Caim, Haddad, Teshub, e a tríade grega formada por Ares, Hephestos e Zeus com seu equivalente romano marcado pelos brasões de Marte, Vulcanus e Júpiter, sendo esses três últimos mais fáceis de compreender pelos ocidentais, uma vez que o ferro é metal de Marte, do qual não se pode moldar sem a forja do fogo que é habilidade de Vulcanus, ambas as artes infundidas nos relâmpagos de Júpiter que foram dados à humanidade por Prometeu (o Lúcifer das Stregas e oráculo imortal salvo das correntes jupterianas por Hercules, o décimo terceiro herdeiro da linhagem de Io e filho de Júpiter).

Vulcanus

Para facilitar a compreensão da questão da tempestade, lembremo-nos da própria origem e sentido do vocábulo de poder “abracadabra”. Abracadabra é um acrograma ocidental da palavra hebraica “Abreg Ad Habra” que significa literalmente “Arremessa seu Raio até a Morte”, encontrando seu significado e finalidade iniciática quando se pronuncia rapidamente “Abreg Ad Habra”.

O martelo dos ferreiros, encontrou finalidade mágica também com os T'ou-jen, de Kuang-tsi, que sacrificavam cabras ao deus Dantsien San, pois se servia das cabeças como de bigornas.
Haddad (ferreiro em árabe), também grafado como Haddu, foi um deus das chuvas e tempestades do noroeste semita, cognato do nome de origem com o acadiano deus Adad (as vezes grafado Hadad). Haddad foi muitas vezes chamado simplesmente de Baal (Senhor) e o touro com seus chifres era o animal sagrado à Haddad, assim como para Dantsien, pois nos revela o mito, que durante as tormentas Dantsien San batia seu ferro entre os chifres do animal sacrificado; os relâmpagos e o granizo faiscante caiam sobre a terra e derrubavam aos demônios. Esse deus defende, assim, o ferreiro, as colheitas e os homens. Dantsien San é um deus da tormenta, correspondente ao tibetano Dam-can e, portanto, a rDorje-legs(pa), que cavalga uma cabra e parece ser uma velha divindade bon. Haddad foi igualado com Theshub (o deus da tempestade da Anatólia), o egípcio deus Set, o grego Zeus, e entre os romanos o deus Júpiter, como Júpiter Dolichenus.



Vulcanus, irmão de Marte, foi o responsável pela criação e confecção da couraça de Hércules, o gigante de bronze para o rei Minos, o cetro de Agamenão, as flechas de Apolo, o escudo de Aquiles, o carro do Sol, a coroa de Ariadne, o cetro e os raios de Júpiter, e ricas jóias para as deusas, e ele também participou da produção de Pandora, a primeira mulher, bem como diversas obras metalinas, fossem para adornar e embelezar ou para proteger e vingar. O próprio trono de ouro usado em sua vingança contra a mãe para conseguir o amor de Vênus, e por fim, a fina rede que envolveu seu irmão e sua esposa na mais ardilosa armadilha, foi confeccionada por Vulcanus, o senhor do fogo e da forja dos metais divinos.

Como se pode ver, o fogo não perde seu caráter ambivalente, pois, é umas vezes de origem divina e outras demoníaca (segundo algumas crenças arcaicas, o fogo se origina magicamente no órgão genital das feiticeiras).



O sentido da forja liga-se muitas vezes à palavra ou ao canto, o que corresponde os conjuros em seu sentido iniciático desse ofício, mas também a atividade criadora do Verbo.
Todavia, a participação peculiar do ferreiro na obra cosmogônica comporta um perigo grave, que é o da não-qualificação, da paródia diabólica da atividade proibida. De resto, o metal é extraído das entranhas da terra; a forja está em relação direta com o fogo subterrâneo; as vezes os ferreiros são monstros, ou identificam-se com os guardiães dos tesouros ocultos. Possuem um aspecto temível, propriamente infernal e sua atividade aparenta-se à magia e à feitiçaria. E é por essa razão, que por vezes, os ferreiros eram excluídos da sociedade, e, na maioria dos casos, seu trabalho era rodeado de ritos de purificação, de proibições sexuais e de exorcismos2.

Quanto às façanhas, é o Ferreiro celeste quem desempenha o papel de herói civilizador; traz do céu os grãos cultiváveis e revela a agricultura aos humanos. Antigamente acreditava-se que as pedras metálicas caídas do céu, eram parte da reforma celestial, e por isso, divinas, tão é o caso da pedra de Meca, entre outras que ao caírem, o indivíduo que a encontrasse era nomeado sacerdote obrigatoriamente e tinha como ofício, instituir um culto, revelando seus mistérios somente aos iniciados.

Os deuses da tormenta golpeavam a terra com “pedras de raio”, que continha por insígnia a tocha dupla e o martelo; a tormenta é o signo da hierogamia céu-terra. Ao bater sua bigorna os ferreiros imitam o gesto exemplar do deus forte, e é sabido que neste nível religioso a idéia da criação ex-nihilo, operada por um Ser supremo uraniano, passou à penumbra para ceder seu lugar à idéia da criação por hierogamia e sacrifício sangrento: assistimos assim à transformação da noção de criação na de procriação. Esta é uma das razões pelas quais encontramos na mitologia metalúrgica os motivos de união ritual e sacrifício sangrento.
A idéia de sacrifício na bruxaria, nos leva ao exemplo de Marduk.
Era sempre um Deus o sacrificado, um Deus representado por um homem. Este simbolismo procede tanto das tradições mitológicas, em relação com a criação do homem, como dos mitos sobre a origem das plantas alimentícias. Para criar ao homem Marduk se imola a si mesmo: “Solidificarei meu sangue e dela farei osso”.



Da mesma forma, Deucalião arrojava os “ossos de sua mãe” por cima do ombro “para repovoar o mundo”. Estes ‘ossos’ da Mãe Terra eram pedras, do tipo ‘antimônio e lobo cinzento’, e representavam o Urgrund, a realidade indestrutível, a matriz de onde tinha que sair uma nova humanidade.

A simbiose das tradições metalúrgicas e alquímicas já existentes podem ter concorrido, com efeito, para cabeçalho tanto da bruxaria tradicional quanto da maçonaria operativa com o precioso documento chamado Bergbüchlein, o primeiro livro alemão sobre tal questão, publicado e divulgado em Augs-burg em 1505, do qual se especula ter fornecido a “idéia” a ser embutida nos trabalhos de construção do ser, forja do caráter, desenvolvimento das virtudes, transformação interior, e o homem perfeito, todos trabalhos feiticeiros próprio dos ferreiros. O Bergbüchlein recorda as tradições segundo as quais os astros regem a formação dos metais, e explica igualmente o nascimento do cobre pela influência do planeta Vênus, o do ferro pela de Marte, o do chumbo pela de Saturno, e assim por diante.
Distinguem-se nitidamente em Bergbüchlein a parte da tradição ‘arcaica’ e “popular”, a fertilidade da Mãe Terra e a da tradição erudita, extraída das doutrinas cosmológicas e astrológicas babilônicas, com finalidades de se obter o que chamamos de “ouro das bruxas”, equivalente ao “dinheiro das bruxas” arrazoado por Charles Leland.

A arte do ferreiro equivale à das bruxas e feiticeiros, tanto quanto a descoberta dos segredos da natureza que transformam carvão em diamante. Com relação à pedra e o ferro, quero destacar a presença da ametista, pedra da qual diz a lenda, nasce no campo marcial, o terreno dos lobos, e de fato, o quintal da casa onde nasci esteve cheio delas, ‘brotavam’ do solo entre as flores e muitas ainda podem ser vistas em posse da família. A ametista é uma variedade púrpura do quartzo, e significa “não - intoxicar”, e protege seu portador da embriaguez. A cor da ametista é atribuída ao ferro3+, metal marcial, por impurezas férricas, uma interação complexa entre ferro e alumínio. A ametista quando é exposta ao calor de 500 graus, se torna citrino, sim, o citrino que você comprou foi uma linda ametista queimada, um dos brilhantes segredos alquímicos que se transforma na forja. As ametistas absorvem e revelam as impressões digitais, e as drusas de ametista se formam sobre a base da calcedônia (ágata), da qual são interligadas originalmente. Os lupinos guardam uma série de encantamentos que dão vida à ametista e à ágata na arte feiticeira. A ametista tem uma longa tradição na astrologia e no folclore, também empregada para entendimento celestial, ação, filosofia, desenvolve a espiritualidade, ajuda aqueles que a usa a manter a calma, a paz, e acalmar o espírito; mergulhada no óleo de basílico (manjericão italiano) e usada em torno do pescoço protege contra maldições e demônios rivais, e é frequentemente carregada por soldados no ofício marcial, nos cabos das lâminas das espadas como amuleto contra a morte e fornecer vitória nas batalhas. É útil na revelação profética da verdade, fortalece a sabedoria, a prece e os sonhos. Empregada com ‘urucum’ se torna antídoto contra o veneno da mandioca brava, e empregada com ‘agnus castus’, tem ação desaceleradora da libido e por isso é muito usada nas poções de castidade, pois é um poder para todas as formas de super indulgência e quando é amarrada ao punho esquerdo, tem habilidade de favorecer a visão do futuro nos sonhos. A ametista frutifica tudo o que toca, empurra pra frente e transmuta, juntamente com a planta ‘Jibóia’, as energias negativas em positivas. Cravada na terra do vaso da planta ‘violeta’, é muito usada nas salas de reuniões para acalmar os ânimos, mas todas essas fórmulas não são independentes dos encantamentos e conjurações.
Na mitologia grega, Ametista é o nome da ninfa que, para ser protegida do assédio de Dioniso (Baco), foi transformada pela deusa da castidade num cristal transparente. Baco nada mais podia fazer, a não ser mergulhá-la no vinho – de onde teria vindo sua coloração arroxeada. Ela é a pedra empregada na abertura do chakra Ajna (o 3º olho), e atua sobre o sistema circulatório, imunológico, e metabólico, além de acalmar a mente, aumentando a memória e a motivação.



A tradição, parte da premissa de que, obedece a ordem dos deuses e aos seres divinos a revelação de suas convocações ou ensinar aos humanos a exploração de seu conteúdo. Estas crenças se mantiveram na Europa até um passado bastante recente. O viajante grego Nucius Nicandro, que visitou Lieja no século XVI, conta-nos a lenda do descobrimento das minas de carvão do norte da França e Bélgica: 'um anjo apareceu sob a forma de um ancião venerável, e mostrou a boca de uma galeria a um ferreiro que até então vinha empregando lenha para seu forno. Em Fi-nisterre se conta que foi uma fada (groac'k) a que revelou aos homens a existência de chumbo argentífero. E foi São Peran, santo padroeiro das minas, quem descobriu a fusão dos metais.
Escreveu A. Hale, que o mineiro malaio tem idéias particulares sobre o estanho e suas propriedades e, acima de tudo, acredita que o estanho se encontra sob a proteção e às ordens de certos espíritos aos quais estima apropriado apaziguar, conjurando-os para receber o sacrifício.
Nesse mesmo sentido, acrescenta-se o caráter sexual para a conjuração feita pelo ferreiro da tribo africana Bakitara, que trata à bigorna como se fosse uma desposada, e para saber mais sobre esse fato, pode se consultar R. P. Wyckaert, que estudou de perto os ferreiros da Tanganika.



1relativo aos Asuras, deuses soberanos da mitologia védica.

2exorcismo literalmente significa “juramento”.

Sett Ben Qayin


terça-feira, 20 de setembro de 2011

Seth, o Deus Maldito?

Enoque


Set sempre foi mal?

Mal compreendido, Mal entendido, Mal admirado, Mal abrangido, Mal exemplificado, tanto nas narrativas da história quanto pelos articuladores estudiosos de plantão. 

Para tanto, eu poderia advertir sobre esse assunto, que seria melhor passar em silêncio o livro de Jean Robin, Seth, Le Dieu maudit (Paris, Trendaniel, 1986), que propõe, ao fazer uso da doutrina de Guenon, a reabilitação desta divindade infernal. Contudo, em The secret of the Christian way: a contemplative ascent through the writings, Borella e Champoux esclarecem impressões bastante admiráveis, todavia, hoje, quero mesmo é recomendar esta questão bastante difusa e pouco compreendida, que nosso amigo David Hexen, vem nos presentear nas palavras de Jean Robin em seu Ophidicus Natura.

Descubra o que Set, Seth, Hadad e Enoque tem em comum, clicando em:



segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Iniciação – Descortinando o Véu do Fogo




A iniciação não é somente o início do caminho, mas é também o começo da alameda, a abertura, a passagem, o acesso, a entrada, a estrada, a via, o logradouro que conduz ao cálice do qual o noviço poderá ou não beber do vinho do crânio do sábio. A iniciação é induzida, enquanto que, sorver do vinho do crânio do sábio é uma diligência e uma escolha, não necessariamente nessa ordem.



Iniciar é no sentido de teleutai: fazer morrer, de certo modo, fazer expirar, provocar a morte, o fim. Mas a morte é considerada uma saída, a passagem de uma porta que dá acesso a outro lugar. À saída, então, corresponde uma entrada. Iniciar é também introduzir. O iniciado transpõe a cortina de fogo que separa o profano do sagrado, passa de um mundo para outro, e sofre, com esse fato, uma transformação, muda de nível, torna-se diferente.



A transmutação dos metais (no sentido simbólico da alquimia) é também uma iniciação que exige uma morte, uma passagem. A iniciação opera uma metamorfose. A morte iniciática não diz respeito à psicologia humana, representa a morte aos olhos do mundo, enquanto superação da condição profana.

O neófito parece operar um processo de regressão, seu novo nascimento é comparado a um retorno ao estado fetal no ventre de uma mãe. Ele então, penetra na noite, mas uma noite que lhe diz respeito; num sentido mais amplo, é o mergulho na noite cósmica.



Todos os rituais comportam processos particulares com relação à morte iniciática.  O candidato pode ser posto numa cova cavada ad hoc, para ele; pode ser recoberto de galhos e esfregado com um pó que lhe dá a alvura de um cadáver. Mircea Eliade, em Mistério e regeneração espiritual nas religiões extra-européias, em Eranos Jahrbuch, 1945, 23, p. 65 e seguintes, aborda esse tema dos ritos iniciáticos e suas mortes como poderosas fontes de transformação, sendo, um rito de passagem que simboliza o nascimento de um novo ser ou o retorno do ser para com os seus iguais. 

O rito formal é um marco, enquanto que seus efeitos transcendem essa linha marcada no tempo e no espaço, para averiguar no iniciado a condição de ascendência espiritual de uma certa linhagem.



Num plano tanto cristão quanto neo-pagão, os sofrimentos estão ligados à passagem de um estado a outro, do homem mundano para o homem espiritual, com suas diversas provas. Os monges do deserto ilustram isso, com as provas sofridas pela confrontação com o poder dos demônios, donde o nome de tentações dado a esses fenômenos. 



Os bruxos enfrentam suas ordálias, de modo que, sempre é um tipo variado de provocação imposto à nova vida, dada pela morte, como uma aliança de barbas serpentinas da medusa que quando deparado a um esquadrão assaltante, satisfaz para extrair sua excisão. 



A tentação de Santo Antão é a mais célere e a mais desfigurada. O cristianismo insípido guardou muito das antigas magias utilizadas nos velhos rituais e costumes dos pagãos e as utiliza até os dias atuais, entretanto, a despeito dos mesmos propósitos, a dialética abordada não é a mesma.

O cristianismo identificou as forças do mal com demônios que atormentam o homem, o qual passa ao estado de santidade não forçosamente por escolha voluntária, pessoal, mas por ter sido escolhido.



A morte iniciática prefigura a morte física, que deve ser considerada como a iniciação essencial para aceder a uma vida nova, e com ela os produtos como Telesforevw. E, no entanto, antes da morte real, graças à morte iniciática incessantemente repetida, no sentido que São Paulo indica aos cristãos (1 Coríntios, 15, 31), o homem constrói seu corpo glorioso. Vivendo, embora, neste mundo profano, ao qual não deixa de pertencer, ele penetra, com efeito, pela graça, na eternidade.




A imortalidade não surge depois da morte, ela não pertence à condição post mortem, ela se forma no tempo, e é obra da morte iniciática. Em três tempos, é fruto da Teleutai, somado ao esforço de Telesforevw, fabricando o esmero encontrado em Teleivwsi. 


Sem isso, qualquer feiticeiro que clame o título de bruxo tradicional, não tem nada mais nada menos que um culto nas mãos, culto este que, nada tem de feiticeiro, mas sim, de servidão.

Sett Ben Qayin

sábado, 3 de setembro de 2011

A Insígnia da Máscara e os Diabos Mascarados – 3ª e última parte.




AS MÁSCARAS SOCIAIS

Em nosso tempo, temos as máscaras sociais que nada mais são que os estilos sociais que necessitamos assumir nas mais diferentes ocasiões e espaços da sociedade contemporânea. Bertolt Brecht utilizou a palavra “gestus” para se referir às atitudes sociais nas inter-relações dos papéis desempenhados no meio social. 

As inclusões de poder entre os personagens trazem o “gestus” brechtiano, ou melhor, a máscara social do personagem. Esta máscara social não carece ser efetivamente uma peça para deitar sobre o rosto, mas uma canção, uma palavra, uma atitude, ou um acessório cênico (religioso ou não). A palavra “gestus” vem da gestalt, termo alemão intraduzível, de 1870, com um sentido aproximado de figura, forma, aparência, cuja doutrina traz em si a concepção de que não se pode conhecer o todo através das partes, e sim as partes por meio do conjunto.



Hoje a máscara ainda é acessório importante em nossa sociedade, sendo utilizada em festas folclóricas, rituais sagrados, e em outras situações que expressam a nossa tradição cultural. A máscara é eterna!
Sendo assim, não poderíamos deixar de mencionar, a célere frase da canção Le Bal Masqué, de La Compagnie Créole: “Derrièr' mon loup, Je fais ce qui me plaît, me plaît”, que significa: “atrás do meu lobo, eu faço o que gosto, eu gosto”.

As máscaras reanimam, a intervalos regulares, os mitos que pretendem explicar as origens dos costumes cotidianos. De acordo com as insígnias, a ética se apresenta como uma réplica da gênese do cosmo. 



As máscaras preenchem uma função social: as cerimônias mascaradas são cosmogonias representadas que regeneram o tempo e o espaço: elas tentam, por esse meio, substrair o homem e todos os valores dos quais ele é depositário da degradação que atinge todas as coisas no tempo histórico. Mas são também verdadeiros espetáculos catárticos, no curso dos quais o homem toma consciência de seu lugar dentro do universo, vê a sua vida e a sua morte inscritas em um drama coletivo que lhes dá sentido, e por fim, os diabos mascarados somos nós mesmos.

Sett Ben Qayin


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BEDOUIN, J. - L., Les Masques. Paris. 1941


BURCKHARDT, Titus, A Máscara Sagrada, nos Estudos Tradicionais, nº 380. Paris. 1950. (tradução no acervo do autor).

CELTICUM, Suplemento anual; Ogam. P. 12, 103-113 e pl. 47.

DEVAMBEZ, P. Dictionnaire de la Civilisation grecque. Paris. 1966. P. 284

GRANET, M.Danses et legends de la Chine ancienne, 2 vols. Paris. 1926

GROUSSET, R. La Chine et Son Art. Paris. 1951

GUENON, R. Perspectivas sobre a Iniciação. Paris. 1946 (tradução no acervo do autor).

GUENON, R. Símbolos fundamentais da Ciência Sagrada. Paris. 1962 (tradução no acervo do autor).

JACKSON, Nigel. Masks of Misrule: The Horned God & His Cult in Europe. Capall Bann Pub. 1996


JANSEN, José. A máscara no culto, no teatro e na tradição. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde. 1952.

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