sábado, 9 de abril de 2011

O Feiticeiro Perfeito

do chamado aos ossos de ouro dos lupinos 

A feitiçaria de superfície é analogia; a feitiçaria de profundidade, a sintonia.

Em outras palavras, atrás dos falsos segredos das doutrinas (falsos, porque sempre ou quase sempre se acaba por conhecê-los) encontra-se um dos verdadeiros mistérios do Ser, mas não o único, dando-se a simbiose entre a caveira arrazoada e os ossos lineares, a equivalência simbólica da parte e do todo.

A melhor prova disso é a concepção bruxa do Feiticeiro Perfeito. As feitiçarias não estão de acordo sobre a natureza e a origem do homem; entretanto, um consenso intervém quando a questão é a de descrever o modelo humano, o homem transformado, espelho da feitiçaria fidedigna, assim como espelho do mundo sábio.


A noção de Feiticeiro Perfeito não parece existir em algumas vertentes feiticeiras. Entretanto, é curioso perceber as semelhanças que ligam as diversas concepções do Feiticeiro nas diferentes artes ocultas, e a concepção da própria palavra.


O Feiticeiro Tradicional, de ossos dourados, verá ai alguma concordância, contudo, os bruxos re-interpretadores da arte se contentarão em assinalar que essa noção de feitiçaria faz uma síntese dos invariantes, porque ele é concebido pela imanência, não como microcosmo. Encontra-se a noção de Feiticeiro completo nas culturas bruxas mais aprofundadas, amparado por mitos clássicos como o Filho do Homem (Ben Adam) da tradição Judaica, o Homem Acabado (Al-insân al-kâmil) do sufismo, o Homem Espiritual (Cheng-jen) do Taoísmo, o Grande Homem (Megas Anthrôpos) do gnosticismo, o Homem Realmente Homem (Ontôs Anthrôpos) do hermetismo, o Grande Homem (Mahâpurusa) do budismo, o Homem Transcendente de Guénon, o Homem Perfeito (Anthrôpos teleios) da tradição Platônica, todos, com aspectos feiticeiros para modificação interna e externa.

Não existe aí um ecletismo à maneira bruxa, porque a definição para o qual induz um trabalho sério por via desses termos não é muito diferente de uma feitiçaria a outra, de um bruxo a outro; além do mais, a noção é bastante definida, a ponto de ela se distinguir nitidamente de noções próximas, como as do Feiticeiro Primordial, do Feiticeiro Verdadeiro, da feitiçaria atemporal que engloba todos os universos. Voltando ao que importa, é necessário notar que o Feiticeiro é completo porque não é mais um microcosmo em poder, mas um microcosmo em ação. Ele é apresentado pelos bruxos tradicionais como o resumo realizado e a síntese ativa do mundo: "O Feiticeiro Perfeito é a reunião de todos os mundos divinos e naturais. A alma mundi é a essência do grande feiticeiro, assim como a alma racional é a essência do bruxo. “Por todo o mundo é difundida a crença primitiva de que, a alma se separa do corpo durante o sono e só volta à ele no momento do despertar. Essa crença implica no reflexo das tribulações da alma fora do corpo, um mundo paralelo que pode trazer a doença e até a morte ao ‘sonhador’”. 


Ele é sintonia. Ele cumpre inteiramente as possibilidades do ser e as correspondências entre o seu interior e o mundo exterior. Ele é puro conhecimento e pura satisfação. E isso é um assunto um milhão de vezes tradicional.

Por Sett Ben Qayin 



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