segunda-feira, 4 de julho de 2011

A Diferença entre o Diabo e Satã

Ilustração de John Martin - 1823/1825



Publicado primeiramente em The Cauldron, 13/10/2004.



Quem pensa que Satã é o nome do Diabo pode se surpreender ao descobrir que a palavra satã existia antes da palavra diabo. Em todas as línguas ocidentais, este último termo é o mesmo: devil, diable, diablo, diavolo, Teufel. E todas as línguas que têm esse termo também possuem o termo satã. Embora sejam mais ou menos a mesma coisa, não há Diabo sem Satã, e não há Satã, sem Diabo. "Mais ou menos a mesma coisa" hoje em dia, porém muito diferentes no princípio. Satan é uma palavra hebraíca que em geral significa adversário, nada mais. Às vezes ele é um ser humano, às vezes uma figura celestial.

Em Jó, no Antigo Testamento, Satã é um membro do conselho de Deus. Satã é um posto, seja de inspetor, seja de promotor. Satã é um título, não nome de ninguém. Satã não é o Diabo (embora viesse a tornar-se o Diabo em comentários cristãos ). 
No cânone do Antigo Testamento, exceto em Jó, raramente encontramos o Satã (ou Satã); quando encontramos, ele não é importante. O adversário de Deus - O Diabo - é chamado diabolos nos Evangelhos de São Lucas e Mateus. Essa palavra grega significa acusador ou difamador; foi traduzido como diabolus. 

O Satã e o Diabo eram diferentes. Porém, mais de trezentos anos antes de Cristo, um fator de resultados imprevisíveis fora introduzido pelos judeus alexandrinos: ao verterem o Antigo Testamento para o grego, traduziram o satan hebraico para o grego diabolos. 

É por isso que o Diabo do Antigo e do Novo Testamento têm o mesmo nome, embora não signifiquem a mesma coisa. O resultado é que a forma da palavra inglesa devil provêm do latim diabolus. Mas o significado de diabo deriva de três palavras diferentes em hebreu, grego e latim -satan, diabolos e diabolus -, confundindo as pessoas ao longo dos séculos. 
Esses significados sobrepuseram-se até mesmo durante o século I d.C., sendo as palavras usadas alternativamente, sem a menor consistência, tanto nas Escrituras como nos comentários. 

Uma outra palavra para designar o Diabo é dáimon, ou demônio. Um dáimon era um espírito mediador entre os deuses e homens, muitas vezes o espírito de um herói morto. No Banquete de Platão, por exemplo, o amor é um grande dáimon, mediador entre os deuses e mortais. Em Crátilo, Sócrates designa homens bons e sábios por "demônios". Demônio é também o gênio de um homem, sendo este o significado em Antônio e Cleopátra de Shakespeare, quando um advinho elogia Antônio: Teu demônio, esse espírito que te sustenta, é nobre, corajoso, altivo, iningualável". 

Dáimon e daimônion também significavam um espírito perverso, dominador, tendo sido esta a única acepção desenvolvida no Novo Testamento e por muitos dos primeiros padres. Os apologistas alexandrinos helenizados dos séculos II e III, por exemplo, interpretaram os demônios platônicos - que não eram particularmente bons nem maus - como anjos caídos perversos. Assim fizeram com vistas a formar uma nova equação: deuses pagãos = demônios maus = diabos. "As coisas que os gentios sacrificam, é aos diabos que 
sacrificam", escreveu Paulo.E essa equação reorientou a arte, a ciência e as percepções sociais. 

Em Êxodo (cap. 32), as pessoas se cansam de esperar que Moisés regresse do Monte Sinai e pedem a Aarão que molde um bezerro com seus ornamentos de ouro. Aarão atende ao pedido, e o povo se prostra diante daquele novo ídolo. Deus alerta Moisés sobre a transgressão, ele desce ao acampanhento dos israelitas e encontra os adoradores banqueteando-se e dançando. Furioso, Moisés quebra as tábuas do Dez Mandamentos, apodera-se do bezerro de outro, incienra-o, pulveriza os restos, lanço o pó à água e obriga os israelitas a bebê-la. 

Nos séculos XI e XII, esse assunto despertava um interesse considerável, pois se julgava que o bezerro de ouro era o Diabo sob a forma de um ídolo pagão. Em um capitel da igreja da abadia de La Madeleine, Vézelay, e em outro em St. Lazare, Autun, ambos do início do século XII, Moisés está diante do bezerro de ouro, que é tão só um instrumento do Diabo, representado como algo enorme e feroz. Em La Madeleine, o brutal Diabo é de fato mostrado ao emergir da boca do bezerro. Moisés é representado segurando um cajado em ambos os entalhes, o que é compreensível, pois diferentemente da versão do Êxodo, o episódio é apresentado como uma cena de intenso confronto e conflito. Para esses escultores românicos, o bezerro de ouro era uma forma do adversário de Deus. 

Igualar ídolos pagãos ao Diabo acarretou boa parte da destruição que Giorgio Vasari haveria de deplorar. No prefácio de sua edição revista Vidas dos Artistas (1568), Vasari, não sem uma ponta de ironia, escreveu que o cristianismo: 

"com grande fervor e diligência empenhou-se em derrubar e destruir totalmente toda possibilidade de pecado, por menor que fosse; com isso arruinou ou demoliu todas as esplêndidas estátuas (...) (e) incontáveis memoriais e inscrições deixadas em honra de pessoas ilustres que haviam sido celebradas pelo gênio do mundo antigo. O tremendo zelo (dos cristãos) foi responsável por graves danos à prática das artes, que então caíram em total confusão". 

O Novo Testamento contribuiu para a confusão. Marcos não chamava o Diabo de diabolos, mas de Satanás. E o satan hebreu às vezes foi traduzido para o grego ora como diabolos, ora como o aramaico satanas. As distinções logo desapareceram. Satã, Satanás, diabolos e diabolus passaram a ter significados intercambiáveis. Se examinarmos os Evangelhos, I João e Apocalipse, veremos emergir certos padrões: 

Daimonion (espírito mau): mencionado por Marcos, Mateus e Lucas (João não menciona expulsões de diabos, mas apenas a forma "ter um diabo"). 
Em Apocalipse há uma ocorrência de daimônion referindo-se a deuses pagãos e dois usos de dáimon. Em I João não há nenhuma ocorrência. 
Diabolos: mencionado em Marcos, Lucas, mateus, Apocalipse. Não mencionado em Marcos. Satanas: mencionado em Marcos, Lucas, Mateus, Apocalipse. É usado uma vez por João, mas não em I João. 

Esses autores podem ter se referido a diferentes seres e, portanto, usado termos diferentes; nenhum deles parece ter tido familiaridade com os três termos. Talvez tenham tido idéias diferentes quanto à forma essencial e aos atributos específicos do Maligno ou considerado esses termos alternativos. Não sabemos por que o tentador de Jesus foi chamado de diabolos por Mateus e Lucas, e satan por Marcos. 
Sabemos, porém, que diabolos não era comumente associados a demônios que possuem, enquanto satan, sim. 

Talvez Mateus e Lucas quisessem distinguir o adversário de Deus, o Satã (no primeiro caso), de meros diabos (no segundo caso). Mas já que Marcos usou satan para designar o mesmo ser que é chamado diabolos nos dois outros Evangelhos, comentaristas (e tradutores) posteriores não hesitaram em igualar os dois termos. Em conclusão, Satã tornou-se o nome do Diabo na equação satan = diabolos, que é especificamente mencionada em Apocalipse (12,9): "E o grande dragão foi expulso, a velha sepente, chamada o Diabo (diabolos) e Satã". 

Com a tradução da Bíblia para o latim ( e houve muitas traduções de várias fontes antes do século V), deparamos com confusões semânticas nas quais as distinções sutis desaparecem. Essa redução e fusão de diferentes tradições demoniácas e termos designativos do Diabo estava completa por volta do século III, tendo resultados que podem ser vistos em uma das primeiras encenações de mistério, a peça anglo-normanda Mystère d' Adam ( O mistério de Adão), de meados do século XII. Adão, aborrecedíssimo porque o "Diabolus" falara com Eva, interpela a companheira: "Diz, mulher, o que o perverso Satã queria contigo" (Di Moi, Muiller; que te querroit / Li mal Satan). Assim, o hebraico satan que se tornou o grego diabolos, que por sua vez se tornou o latim diabolus, transformara-se no francês Satan ! E nos mistérios ingleses do século XIV, como por exemplo The Chester cycle (O ciclo de Chester), constatamos que Satã, Satanás, Di abolus, Lúcifer e Diabo são permutáveis; transformam-se um no outro como uma seqüência em um arco sem fim - como uma faixa de Móbius. 

COMO O DIABO GANHOU O NOME DE LÚCIFER 

"Não consigo descobrir por que ele é chamado Lúcifer", afirmou Shelley em seu engenhoso ensaio sobre o Diabo, "exceto por uma passagem de Isaías erroneamente interpretada." Procuremos compreender por que essa passagem foi mal interpretada. Não podemos encontrar "Lúcifer" mesmo que examinemos cada página dos livros apócrifos e das pseudo-epígrafes. Lúcifer - como o nome do Diabo - não está nas Escrituras. Lúcifer, na verdade, não é nome de ninguém: significa apenas "o que leva a luz". Lúcifer é a estrela da manhã, o planeta Vênus, que aparece antes do alvorecer. Ovídio menciona que cada novo dia começa quando "Lúcifer brilha radiante no céu, chamando a humanidade para seus afazeres diários. Lúcifer excede em brilho as estrelas mais radiantes". 

Shelley, em Defense of poetry (Defesa da poesia), aclamou Dante como "o congregante dos grandes espíritos que presidiram a ressurreição do saber, o Lúcifer daquele grupo brilhantes que no século XIII irradiou da republicana Itália como de um céu, na escuridão do mundo "inculto" Mas abrimos a Divina Comédia e, nas profundezas do "Inferno" de Dante está Lúcifer, um monstro hediondo. Para Dante, Lúcifer e Satã são o mesmo. Como e por que isso aconteceu? 

A identificação de Lúcifer com Satã vem de Isaías (14,12): "Como caíste do céu, ó Lúcifer, filho da alva !" Isaías não estava falando do Diabo. Usando imagens possivelmente retiradas de um antigo mito cananeu, Isaías referia-se aos excessos de um ambicioso rei babilônico que caiu no mundo dos mortos. Suas palavras passaram a significar uma referência do Diabo ao longo de quatro etapas: um rei tirânico é descrito em uma metáfora ( o rei = uma estrela brilhante); a expressão hebraica helel (helel ben shahar) ou grega eosphrus são traduzidas para o latim como a estrela da manhã, Lúcifer; posteriormente o rei tirânico é identificado com o Diabo; ergo Lúcifer torna-se outro nome para o Diabo. A resposta à questão de por que esse rei foi identificado com o Diabo é que isso resolvia o incômodo problema da natureza do Diabo. 

Orígenes, teólogo do século III, não se esquivou ao problema: "Ninguém pode saber a origem do Mal", escreveu ele, "sem ter entendido a verdade sobre o chamado diabo e seus anjos, e quem ele era antes de tornar-se um diabo e como ele se tornou um diabo". Se Deus criou o Diabo e se este é em si mau, então Deus criou o mal. As implicações poderiam ser pertubadoras (em especial porque, como salientou Espinosa, o diabo tenta as pessoas a fazer o mal, pelo que elas são punidas depois). 

Se o diabo houvesse nascido mau, poderíamos dizer que ele pecou ? Ele não teria opção, a não ser fazer o mal. Mas se Deus não criou o Diabo, Deus não é onipotente, e assim mergulharamos em um mundo maniqueísta, marcado pelo conflito entre e bem e mal cujo resultado é inerentemente inconclusivo.Os padres cristãos do século XV resolveram o problema em duas etapas. Sim, Deus criou o Diabo, mas o Diabo não era inerentemente mau quando foi criado; ele não escolheu tornar-se mau. Essa solução exigiu fundamento nas Escrituras, e o modo como esse fundamento foi providenciado explicará por que Lúcifer tornou-se um nome para o Diabo. Portanto, Deus permanece onipotente, mas não é o responsável pelo mal. O argumento de Santo Agostinho, principal pensador cristão do início do século V, é instrutivo. 

Santo Agostinho foi muito mais influente do que Orígenes (que ele detestava). Podemos avaliar seu temperamnto quando ele afirma que, embora homens bons e maus sofram igualmente, existe uma diferença crucial: "No mesmo fogo, o ouro brilha e a palha fumega; a borra não é confundida com óleo porque saíram da mesma prensa (....) A mesma agitação que faz a água fétida exalar mau cheiro faz o perfume emitir um odor mais agradável". 

Na terceira parte de A Cidade de Deus, sua principal obra, Santo Agostinho explica a origem das duas cidades, a cidade de Deus e a cidade do Diabo. Originalmente, diz ele, todos os anjos eram seres de luz, criados "para viver na sabedoria e felicidade. Alguns anjos, porém afastaram-se dessa iluminação". Se o o Diabo é um anjo caído, ele tem de ter caído. Entretanto, a primeira epístola de João assevera que "aquele que comete o pecado é do demônio, por que o demônio é pecador desde o princípio". Para isto é que o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do demônio. Todo aquele que nasceu de Deus não comete pecado, porque sua semente permanece nele; e não pode pecar porque nasceu de Deus" (3,8-9). 

Isso implica que o Diabo não foi criado por Deus? O Diabo de são João e o de Santo Agostinho não parecem ser o mesmo, mas Santo Agostinho tinha uma resposta. João de fato escreveu que "o Diabo vive pecando desde o princípio", admite Santo Agostinho, mas isso "deve ser entendido no sentido de que ele pecou não desde o princípio de sua criação, mas desde o princípio do pecado, pois o pecado principal no orgulho". Essa manipulação conduz à resposta para nossa questão inicial. 

Os maniqueus não entendem que, se o Diabo é mau por natureza, não se pode absolutamente falar em pecado. Eles não têm como objetar o testemunho dos profetas, por exemplo, quando Isaías, representando figurativamente o Diabo na pessoa do princípe da Babilônia, pergunta: "Como caíste do Céu, ó Lúcifer, filho da alva ?". (Isso indica) que o Diabo esteve por algum tempo sem pecado. 

A explicação de santo Agostinho mostra que, na época em que ele estava escrevendo, Lúcifer não era um nome comum do Diabo. É bem verdade que, dois séculos antes, Orígenes interpretara partes do Levítico Êxodo, Ezequiel e Isaías como referências às manifestações do Diabo. Mas ninguém tentara obter deduções minuciosas a respeito do Diabo com base nessas passagens, nem identificar o Diabo com o nome de Lúcifer. 

Orígenes estava tentando entender a natureza do mal. O objetivo de santo Agostinho era outro: queria identificar os hereges.Quem eram os anjos que seguiram Lúcifer ? Eram hereges assegurou santo Agostinho a seus leitores, "convertidos a seu próprio vômito". Não, diz santo Agostinho, o Diabo não possui poderes próprios, não possui território próprio e não é uma autocriação. Não existe um princípio oposto a Deus que tenha criado o Diabo. O que aconteceu, explica, foi que originalmente o Diabo não tinha pecado, porém mais tarde (alguns dizem uma hora, outros, mais de uma semana) ele se afastou da verdade, como prova o Lúcifer citado por Isaías. 

Com efeito, Lúcifer tornou-se o nome do Diabo como parte do raciocínio usado para fundamentar a idéia de que o Diabo foi originalmente um anjo criado por Deus, mas que recusou a graça e deu as costas à verdade. A motivação por trás da interpretação de Isaías por santo Agostinho foi a luta deste contra os "maniqueus e semelhantes a hereges venenosos que asseveram que o Diabo derivou sua natureza singularmente perversa de algum princípio oposto a Deus". (Oito séculos mais tarde, são Tomás de Aquino diria o mesmo sobre o Diabo e os maniqueus). 

Para combater o Diabo e defini-lo como mais clareza, a passagem de Isaías foi entremeada com a quarta parte do Apocalipse (cap. 12), onde é visto como um grande dragão vermelho: 

(...) sua cauda arrastava um terço das estrelas do Céu, lançando-as para a terra (...) Houve então uma batalha no céu: Miguel e seus anjos guerrearam contra o dragão. O dragão batalhou, juntamente com seus anjos, mas foi derrotado (...) Foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, o chamado Diabo ou Satanás, sedutor de toda a terra habitada - foi expulso para a terra, e seus anjos foram expulsos com ele (12,4 e 7-9)
Satã tornou-se o anjo rebelde. Embora Satã, o Diabo e Lúcifer fossem o mesmo, sem a fusão de Isaías e Apocalipse, Dante, no último canto do "Inferno, nunca poderia ter escrito a respeito de Lúcifer que "Se ele já foi belo como hoje é feio,/ e ainda assim contra seu Criador ergueu a mão,/ verdadeiramente toda aflição deve proceder dele." (....) 

OS DIREITOS DO CAPETA 

A doutrina cristã da redenção nunca foi oficialmente formulada, apesar de ter sido um dos mistérios mais debatidos na Igreja. Ela indicaria o primeiro acordo com o Diabo. Formulada originalmente por Irineu em fins do século II e desenvolvida na íntegra por Gregório de Nisa no século IV, a teoria da redenção foi catada pela maioria dos cristãos durante mil anos. Embora pareça bizarro, eis a crenção dos teólogos, de Gregório de Nisa a santo Agostinho, e de papas como Leão, o Grande, e Gregório, o Grande: Adão pecou e por isso foi punido após a morte, tornando-se cativo no reino do Diabo. 

Um cativo só pode ser resgatado pagando um resgate ao seu amo. Como Deus é justo, não podia arrancar à forã o homem ( o cativo) do Diabo (seu amo). Assim, Deus decidiu enganar o Diabo, mantendo em segredo o nascimento de Jesus. À medida que Jesus foi crescendo, o Diabo se deu conta do homem perfeito que ele era, e o quis para seu reino. Concordou em aceitar a morte de Jesus como um resgate para o homem. 
Depois da crucificação de Jesus, o Diabo foi buscar o resgate, mas descobriu que havia sido enganado. O homem Jesus foi a isca humana na qual estava escondido o anzol da divindade de Cristo. (...) 

No século i.d.C., Inácio sugeriu que Deus enganou o Diabo mantendo em segredo o nascimento de Jesus. No século II, Irineu definiu os direitos do Diabo afirmando que a apostasia de Adão justificou o domínio injusto do Diabo sobre o homem. Deus não podia usar a força por que isso violaria os princípios da justiça. Portanto, comprou de volta o homem, usando Jesus como resgate. Cristo foi o resgate pago ao Diabo para libertar o homem de seu cativeiro, o que Gregório de Nisa expressou em metáfora inesquecível - Cristo é a isca em um anzol: O propósito da encarnação era que a virtude divina de jesus pudesse ser uma espécie de anzol escondido sob a forma de carne humana (...) e que o Filho pudesse oferecer ao Diabo sua carne como isca, e, com isso, a natureza divina que havia sob a superfície pudesse apanhá-lo e prendê-lo firmemente em seu anzol. 

Como Deus é justo, argumentou Gregório, não podia exercer "uma autoridade arbitrária sobre o Diabo que nos mantinha cativos", pois se Deus houvesse usado a força, o Diabo teria tido "um motivo justo de queixa". Cristo como armadilha de Deus para o Diabo e Cristo como um resgate pago ao Diabo foram idéias amplamente aceitas. Mas um outro Gregório, no século IV, Gregório de Nazianzo, escandalizou-se: "Ultrajante ! Pagou o resgate ao Diabo ? Aprouve o Pai com o sangue do Seu ùnico Filho ? Contudo, foi essa idéia "ultrajante" que prevaleceu. Santo Agostinho aceitou-a, embora mudando a imagem de Cristo como isca num anzol para outra menos atraente - uma ratoeira. O Diabo tem direitos sobre o homem, portanto é preciso pagar um resgate, e Deus engana o Diabo usando Cristo como isca. Esses argumentos vividamente descritos com imagens constituíram a crença ortodoxa. 

Anselmo, o fundador da escolástica no século XI, rejeitou veementemente essa idéia. Nenhum resgate é devido a Satã, mas há uma dívida para com Deus: esse é o cerne da teoria do pagamento. Anselmo rejeitou a idéia de Gregório, de que "Deus foi obrigado a contrapor-se ao Diabo pela justiça, e não pela força". "Não vejo que força esse argumento pode ter", afirma Anselmo. O homem mereceu ser punido, mas o Diabo, insiste Anselmo, não tem o direito de infligir o castigo. Pelo contrário, como o Diabo não é motivado pelo amor à justiça mas pela maldade, isso é o cúmulo da injustiça. Portanto, nada se deve ao Diabo. 

A teoria de Anselmo, do pagamento de uma dívida junto a Deus em vez de um resgate pago ao Diabo, foi amplamente aceita por eclesiásticos instruídos. O descrito acima é apenas um resumo da explicação usual; se Anselmo estava seriamente interessado em tentar descobrir se era dívida ou resgate, é uma outra questão. Talvez ele não tivesse o mínimo interesse; sua nova formulação foi uma resposta a críticos que não conseguiam entender como Deus era onipotente e bom, se teve de sofrer e descer do Céu como Jesus Cristo para derrotar o Diabo. Robinson Crusóe viu-se diante do mesmo problema de Anselmo quando tentou explicar ao seu companheiro selvagem, Sexta-Feira, que o Diabo era o inimigo de Deus tentanto destruir o reino de Cristo: 

"Certo", diz Sexta-Feria, "mas se você diz que Deus é tão forte, tão grande, ele não é mais forte e mais poderoso que o Diabo ?" "Sim, sim", respondo, "Sexta-Feira, Deus é mais forte que o diabo, Deus está acima do diabo, e por isso rezamos a Deus para que esmaguemos o diabo debaixo de nossos pés" (...) "Mas", diz ele outra vez, "se Deus é muito mais forte, muito mais poderoso que o diabo, por que Deus não mata o diabo para ele não fazer mais maldade? "Fiquei estranhamente surpreso com sua pergunta; afinal de contas, embora eu já fosse um homem velho, era um doutrinador novato, e muito mal qualificado como casuísta ou esclarecedor de dificuldades; assim, a princípio não soube o que dizer, por isso fingi não o ouvir". 

Anselmo não pôde se dar ao luxo de fingir não ouvir. Sua teoria da dívida foi uma resposta a dissidentes que levantaram as mesmas questões de Sexta-Feira. Anselmo examina o tema dos direitos do diabo e argumenta que uma ação pode ser ao mesmo tempo justa e injusta, depondendo do ponto de vista, "porque é justo que Deus o permita, e justo que o homem sofra. Entretanto, quando se diz que o homem sofre justamente, não é devido à justiça inerente a isso, mas porque ele é punido pelo justo julgamento de Deus". Isso pode fazer sentido, mas de modo geral é uma evasiva. Algumas pessoas são fascinadas pelos escolásticos, contudo, eles raramente suportam uma leitura mais atenta, o que faz lembrar os sofistas, embora sem a honestidade destes e com uma lógica muito mais débil. Rigorosamente considerando, a maioria dos escolásticos, inclusive Anselmo, está jogando com formulações impingidas como idéias lógicas. 

Uma exceção importante é Pedro Abelardo (c. 1079-1142), que, como Anselmo, rejeitou os direitos do Diabo. Ao contrário do fundador da escolástica, Abelardo aguçou o problema. Que direito poderia ter o Diabo de torturar o homem, perguntou Abelardo, a menos que o Senhor expressamente lhe desse esse direito ? E isto o Senhor não faria: pois o Diabo ter direitos sobre o homem seria totalmente injusto, já que foi o Diabo que, pela astúcia, induziu o homem a pecar. E por que razão concebível deveria Jesus suportar jejuns, insultos, flagelos, escárnio e, por fim, a mais penosa e humilhante das mortes ? Para nossa redenção ? Abelardo foi além de Anselmo e fez uma pergunta que ninguém antes fizera : 

Se o pecado de Adão foi tão grande que só podia ser expiado com a morte de Cristo, então que expiação valeria pelo ato de assassinato cometido contra Cristo? 

Tanto a teoria do resgate como a do pagamento pareciam eticamente repulsivas. O conceito de redenção de Abelardo baseava-se em que, pelo sofrimento e morte, Cristo nos ligou mais estreitamente a si pelo amor: nossos corações "abrasam-se com essa dávida de graça divina (...) testemunhando que ele veio com o propósito expresso de disseminar a verdadeira liberdade do amor entre os homens". Em Abelardo, as imagens da dívida e dos direitos não existem. Mas sua compreensão ética da Redenção deparou com um descaso generalizado; a formulação de Anselmo tornou-se ortodoxa ( e foi usada por Tomás de Aquino). 

O poder do Diabo foi drasticamente reduzido: uma dívida para com Deus substituiu o resgate devido a Satã. Teologicamente, essa nova doutrina apóia-se em uma redefinição radical do papel do Diabo, que foi despojado de seus direitos. A verdade, porém, é que a vasta literatura sobre esse assunto não teve efeito sobre a imagem visual do Diabo. Pelo contrário: os Juízos Finais entalhados em catedrais por toda Europa mostram o Diabo recebendo os pecadores que lhe são devidos e desfrutando o direito de puni-los, participando, assim, da justiça de Deus. (...) 

Talvez a razão mais decisiva da sobrevivência da teoria é que a maioria das pessoas, inclusive os clérigos, não era capaz de entender facilmente essas distinções mais recentes. A imagem inicial tinha estado na mente do povo por mais de quinhentos anos e provavelmente continuou predominante na tradição popular. En níveis superiores da teoria teológica, o papel do Diabo mudara, mas no nível popular ele conservou seus direitos. Nada nos textos dos escolásticos é requerido, por exemplo, para se compreender coisa alguma sobre o Diabo nos mistérios encenados nos séculos XIV e XV, que são o melhor testemunho da tradição ral e popular sobre o Diabo. Não seria a expressão inglesa "Give the devil his due" (Ao diabo o que lhe é devido) um vestígio da teoria do resgate - de que o Diabo, também, tem direitos que permanecem conosco até hoje? 

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