sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O Lobo Ferreiro – Parte 1





“O ferreiro é acima de tudo um trabalhador do ferro, e sua condição de nômade derivada de seu deslocamento contínuo em busca do metal bruto e de encargos de trabalho lhe obriga a entrar em contato com diferentes populações.” – Mircea Eliade.

Dos ofícios ligados à transformação dos metais, o de ferreiro é o mais significativo quanto à importância e a ambivalência dos conteúdos que implica. A forja comporta um aspecto cosmogônico e criador, um aspecto asúrico1, e infernal, enfim, um aspecto iniciático.

As ferramentas do ferreiro comunicam o caráter sagrado. O martelo, o fole, a bigorna, revelam-se como seres animados e arrebatadores. Supõe-se que podem operar por sua própria força mágico-religiosa, sem ajuda do ferreiro. O ferreiro de Togo fala, referindo-se à suas ferramentas, do “martelo e sua família”. Em Angola o martelo é venerado por ser o que forja os instrumentos necessários para a agricultura: tratam como a um príncipe e o mimam como a um menino. Os Ogowe, que não conhecem o ferro e, portanto, não o trabalham, veneram ao fole dos ferreiros das tribos vizinhas. Os Mossengere e os Ha Sakate acreditam que a dignidade do mestre ferreiro se concentra no fole.



O primeiro ferreiro é o Brahmanaspati védico, que forja, ou melhor, solda o mundo. Seu trabalho de força é a constituição do ser a partir do não-ser. A fundição do metal (fundi, e reformai o universo, equivalente do solve et coagula hermético) é uma noção taoísta essencial. O Céu e a Terra são a grande fornalha, e a transformação é o grande fundidor, escreve Tchuang-tse (capítulo 6). Entre os povos montanheses do Vietnã do Sul, a obra da criação é uma obra de ferreiro: Bung toma de um pequeno martelo e forja a terra; depois, usando um martelo curto, forja o céu. Tian, a Terra, e Tum, o Céu, casam-se. Às vezes, o próprio homem é forjado, ou, pelo menos, seus ossos e articulações o são. O ferreiro primordial não é o Criador, ele é seu assistente, seu instrumento, o fabricante da ferramenta divina, ou o organizador do mundo criado.
Tvashtri forja a arma de Indra, que é o raio; assim também, Hephestos (Vulcano dos romanos) forja a de Zeus (Júpiter). Ptá, as de Horus; os anões o martelo de Thor. O engole vento, o machado de Konas; e Juno o martelo de Valéria Luperca – diva dos Stregones Lupinos, avatar divino equivalente à Arádia de Charles Leland.
A arma ou ferramenta cosmogônica, na maior parte das vezes, é o raio, relâmpago ou trovão – símbolos da atividade celeste.



O martelo, herdeiro da tocha dos tempos líticos, converte-se na insígnia dos deuses fortes, os deuses da tempestade.
Assim se torna fácil compreender por que às vezes os deuses das tempestades e da fertilidade agrária são imaginados como deuses ferreiros, como no caso encontrado nos mitos de Caim, Haddad, Teshub, e a tríade grega formada por Ares, Hephestos e Zeus com seu equivalente romano marcado pelos brasões de Marte, Vulcanus e Júpiter, sendo esses três últimos mais fáceis de compreender pelos ocidentais, uma vez que o ferro é metal de Marte, do qual não se pode moldar sem a forja do fogo que é habilidade de Vulcanus, ambas as artes infundidas nos relâmpagos de Júpiter que foram dados à humanidade por Prometeu (o Lúcifer das Stregas e oráculo imortal salvo das correntes jupterianas por Hercules, o décimo terceiro herdeiro da linhagem de Io e filho de Júpiter).

Vulcanus

Para facilitar a compreensão da questão da tempestade, lembremo-nos da própria origem e sentido do vocábulo de poder “abracadabra”. Abracadabra é um acrograma ocidental da palavra hebraica “Abreg Ad Habra” que significa literalmente “Arremessa seu Raio até a Morte”, encontrando seu significado e finalidade iniciática quando se pronuncia rapidamente “Abreg Ad Habra”.

O martelo dos ferreiros, encontrou finalidade mágica também com os T'ou-jen, de Kuang-tsi, que sacrificavam cabras ao deus Dantsien San, pois se servia das cabeças como de bigornas.
Haddad (ferreiro em árabe), também grafado como Haddu, foi um deus das chuvas e tempestades do noroeste semita, cognato do nome de origem com o acadiano deus Adad (as vezes grafado Hadad). Haddad foi muitas vezes chamado simplesmente de Baal (Senhor) e o touro com seus chifres era o animal sagrado à Haddad, assim como para Dantsien, pois nos revela o mito, que durante as tormentas Dantsien San batia seu ferro entre os chifres do animal sacrificado; os relâmpagos e o granizo faiscante caiam sobre a terra e derrubavam aos demônios. Esse deus defende, assim, o ferreiro, as colheitas e os homens. Dantsien San é um deus da tormenta, correspondente ao tibetano Dam-can e, portanto, a rDorje-legs(pa), que cavalga uma cabra e parece ser uma velha divindade bon. Haddad foi igualado com Theshub (o deus da tempestade da Anatólia), o egípcio deus Set, o grego Zeus, e entre os romanos o deus Júpiter, como Júpiter Dolichenus.



Vulcanus, irmão de Marte, foi o responsável pela criação e confecção da couraça de Hércules, o gigante de bronze para o rei Minos, o cetro de Agamenão, as flechas de Apolo, o escudo de Aquiles, o carro do Sol, a coroa de Ariadne, o cetro e os raios de Júpiter, e ricas jóias para as deusas, e ele também participou da produção de Pandora, a primeira mulher, bem como diversas obras metalinas, fossem para adornar e embelezar ou para proteger e vingar. O próprio trono de ouro usado em sua vingança contra a mãe para conseguir o amor de Vênus, e por fim, a fina rede que envolveu seu irmão e sua esposa na mais ardilosa armadilha, foi confeccionada por Vulcanus, o senhor do fogo e da forja dos metais divinos.

Como se pode ver, o fogo não perde seu caráter ambivalente, pois, é umas vezes de origem divina e outras demoníaca (segundo algumas crenças arcaicas, o fogo se origina magicamente no órgão genital das feiticeiras).



O sentido da forja liga-se muitas vezes à palavra ou ao canto, o que corresponde os conjuros em seu sentido iniciático desse ofício, mas também a atividade criadora do Verbo.
Todavia, a participação peculiar do ferreiro na obra cosmogônica comporta um perigo grave, que é o da não-qualificação, da paródia diabólica da atividade proibida. De resto, o metal é extraído das entranhas da terra; a forja está em relação direta com o fogo subterrâneo; as vezes os ferreiros são monstros, ou identificam-se com os guardiães dos tesouros ocultos. Possuem um aspecto temível, propriamente infernal e sua atividade aparenta-se à magia e à feitiçaria. E é por essa razão, que por vezes, os ferreiros eram excluídos da sociedade, e, na maioria dos casos, seu trabalho era rodeado de ritos de purificação, de proibições sexuais e de exorcismos2.

Quanto às façanhas, é o Ferreiro celeste quem desempenha o papel de herói civilizador; traz do céu os grãos cultiváveis e revela a agricultura aos humanos. Antigamente acreditava-se que as pedras metálicas caídas do céu, eram parte da reforma celestial, e por isso, divinas, tão é o caso da pedra de Meca, entre outras que ao caírem, o indivíduo que a encontrasse era nomeado sacerdote obrigatoriamente e tinha como ofício, instituir um culto, revelando seus mistérios somente aos iniciados.

Os deuses da tormenta golpeavam a terra com “pedras de raio”, que continha por insígnia a tocha dupla e o martelo; a tormenta é o signo da hierogamia céu-terra. Ao bater sua bigorna os ferreiros imitam o gesto exemplar do deus forte, e é sabido que neste nível religioso a idéia da criação ex-nihilo, operada por um Ser supremo uraniano, passou à penumbra para ceder seu lugar à idéia da criação por hierogamia e sacrifício sangrento: assistimos assim à transformação da noção de criação na de procriação. Esta é uma das razões pelas quais encontramos na mitologia metalúrgica os motivos de união ritual e sacrifício sangrento.
A idéia de sacrifício na bruxaria, nos leva ao exemplo de Marduk.
Era sempre um Deus o sacrificado, um Deus representado por um homem. Este simbolismo procede tanto das tradições mitológicas, em relação com a criação do homem, como dos mitos sobre a origem das plantas alimentícias. Para criar ao homem Marduk se imola a si mesmo: “Solidificarei meu sangue e dela farei osso”.



Da mesma forma, Deucalião arrojava os “ossos de sua mãe” por cima do ombro “para repovoar o mundo”. Estes ‘ossos’ da Mãe Terra eram pedras, do tipo ‘antimônio e lobo cinzento’, e representavam o Urgrund, a realidade indestrutível, a matriz de onde tinha que sair uma nova humanidade.

A simbiose das tradições metalúrgicas e alquímicas já existentes podem ter concorrido, com efeito, para cabeçalho tanto da bruxaria tradicional quanto da maçonaria operativa com o precioso documento chamado Bergbüchlein, o primeiro livro alemão sobre tal questão, publicado e divulgado em Augs-burg em 1505, do qual se especula ter fornecido a “idéia” a ser embutida nos trabalhos de construção do ser, forja do caráter, desenvolvimento das virtudes, transformação interior, e o homem perfeito, todos trabalhos feiticeiros próprio dos ferreiros. O Bergbüchlein recorda as tradições segundo as quais os astros regem a formação dos metais, e explica igualmente o nascimento do cobre pela influência do planeta Vênus, o do ferro pela de Marte, o do chumbo pela de Saturno, e assim por diante.
Distinguem-se nitidamente em Bergbüchlein a parte da tradição ‘arcaica’ e “popular”, a fertilidade da Mãe Terra e a da tradição erudita, extraída das doutrinas cosmológicas e astrológicas babilônicas, com finalidades de se obter o que chamamos de “ouro das bruxas”, equivalente ao “dinheiro das bruxas” arrazoado por Charles Leland.

A arte do ferreiro equivale à das bruxas e feiticeiros, tanto quanto a descoberta dos segredos da natureza que transformam carvão em diamante. Com relação à pedra e o ferro, quero destacar a presença da ametista, pedra da qual diz a lenda, nasce no campo marcial, o terreno dos lobos, e de fato, o quintal da casa onde nasci esteve cheio delas, ‘brotavam’ do solo entre as flores e muitas ainda podem ser vistas em posse da família. A ametista é uma variedade púrpura do quartzo, e significa “não - intoxicar”, e protege seu portador da embriaguez. A cor da ametista é atribuída ao ferro3+, metal marcial, por impurezas férricas, uma interação complexa entre ferro e alumínio. A ametista quando é exposta ao calor de 500 graus, se torna citrino, sim, o citrino que você comprou foi uma linda ametista queimada, um dos brilhantes segredos alquímicos que se transforma na forja. As ametistas absorvem e revelam as impressões digitais, e as drusas de ametista se formam sobre a base da calcedônia (ágata), da qual são interligadas originalmente. Os lupinos guardam uma série de encantamentos que dão vida à ametista e à ágata na arte feiticeira. A ametista tem uma longa tradição na astrologia e no folclore, também empregada para entendimento celestial, ação, filosofia, desenvolve a espiritualidade, ajuda aqueles que a usa a manter a calma, a paz, e acalmar o espírito; mergulhada no óleo de basílico (manjericão italiano) e usada em torno do pescoço protege contra maldições e demônios rivais, e é frequentemente carregada por soldados no ofício marcial, nos cabos das lâminas das espadas como amuleto contra a morte e fornecer vitória nas batalhas. É útil na revelação profética da verdade, fortalece a sabedoria, a prece e os sonhos. Empregada com ‘urucum’ se torna antídoto contra o veneno da mandioca brava, e empregada com ‘agnus castus’, tem ação desaceleradora da libido e por isso é muito usada nas poções de castidade, pois é um poder para todas as formas de super indulgência e quando é amarrada ao punho esquerdo, tem habilidade de favorecer a visão do futuro nos sonhos. A ametista frutifica tudo o que toca, empurra pra frente e transmuta, juntamente com a planta ‘Jibóia’, as energias negativas em positivas. Cravada na terra do vaso da planta ‘violeta’, é muito usada nas salas de reuniões para acalmar os ânimos, mas todas essas fórmulas não são independentes dos encantamentos e conjurações.
Na mitologia grega, Ametista é o nome da ninfa que, para ser protegida do assédio de Dioniso (Baco), foi transformada pela deusa da castidade num cristal transparente. Baco nada mais podia fazer, a não ser mergulhá-la no vinho – de onde teria vindo sua coloração arroxeada. Ela é a pedra empregada na abertura do chakra Ajna (o 3º olho), e atua sobre o sistema circulatório, imunológico, e metabólico, além de acalmar a mente, aumentando a memória e a motivação.



A tradição, parte da premissa de que, obedece a ordem dos deuses e aos seres divinos a revelação de suas convocações ou ensinar aos humanos a exploração de seu conteúdo. Estas crenças se mantiveram na Europa até um passado bastante recente. O viajante grego Nucius Nicandro, que visitou Lieja no século XVI, conta-nos a lenda do descobrimento das minas de carvão do norte da França e Bélgica: 'um anjo apareceu sob a forma de um ancião venerável, e mostrou a boca de uma galeria a um ferreiro que até então vinha empregando lenha para seu forno. Em Fi-nisterre se conta que foi uma fada (groac'k) a que revelou aos homens a existência de chumbo argentífero. E foi São Peran, santo padroeiro das minas, quem descobriu a fusão dos metais.
Escreveu A. Hale, que o mineiro malaio tem idéias particulares sobre o estanho e suas propriedades e, acima de tudo, acredita que o estanho se encontra sob a proteção e às ordens de certos espíritos aos quais estima apropriado apaziguar, conjurando-os para receber o sacrifício.
Nesse mesmo sentido, acrescenta-se o caráter sexual para a conjuração feita pelo ferreiro da tribo africana Bakitara, que trata à bigorna como se fosse uma desposada, e para saber mais sobre esse fato, pode se consultar R. P. Wyckaert, que estudou de perto os ferreiros da Tanganika.



1relativo aos Asuras, deuses soberanos da mitologia védica.

2exorcismo literalmente significa “juramento”.

Sett Ben Qayin


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