quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A bruxa na obra mestra


As Virtudes



Eu sei que sua dor é real, até então é real. O que te dói, dói pra valer. É um sentimento que machuca, rasga por dentro, invade sua pele e dá vontade de chutar tudo para o alto, as vezes dá vontade de por fim na própria vida, de tanto sentir-se injustiçada ou punida por alguém, ou então não ter seu devido reconhecimento dado por quem se espera que dê. Essa forma de pensar e sentir a vida parece ser puramente a prudência sendo descartada. Ao fazer uso da prudência, dispõe a razão a discernir as circunstâncias sobre o verdadeiro bem e a escolher os justos meios para o atingir. Ela indica regra e medida, ela não é a balança da justiça onde se mede e pesa valores. Não adianta fazer uso distorcido da prudência ao começar esse caminho de superação, de mudanças.

Anseios como se sentir injustiçada, humilhada, reduzida, esculhambada, ou sem valor algum vindo de quem se gosta muito ou de quem se ama, é uma das condições exempladas para que se sinta apaixonada por sua dor e se vitimar constantemente enquanto narra sua dor com orgulho; sentir-se machucada por quem se ama, um amigo, um parente, ou até mesmo um animal, sentimentos mesquinhos mascarados de: “eu sou um herói, sobrevivi à isso”, só servem para pedir que os outros tenham dó de si. Tais sentimentos se apresentam para que se tome conhecimento deles, são vistos num primeiro momento como algo abominável e a primeira resposta pra si mesmo é dizer: “Não, eu não tenho isso!” Ou então: “Não! Eu não sou assim”. Mas o fato é que todo mundo é em algum momento, senão muitos momentos, assim. A negação do que se é, na verdade, é o primeiro passo para lançar todo o seu ser para debaixo do tapete do ego, pois no fundo, o ego é o que se tem para fornecer os sentimentos mundanos. Mas machuca, rasga o que por dentro? Tudo isso, inclusive o orgulho moram no ego, portanto, machuca e rasga o ego!

Sapiencia
O trabalho real começa quando a bruxa usa a prudência e principia pensar com o espírito, não com o ego, e quanto mais se valoriza o ego, maior é a intensidade de dor que se sente, então há necessidade de se despir dessa vaidade para atravessar a barreira que separa o ego, da sua Essência.

A tolerância com relação à dor vai se esticando quando você inicia a valorização de quem seu espírito é de verdade, conhecendo ele e distinguindo a sua essência, como é, como sentir, e de onde veio, não antes desse reconhecimento. Dói no ego, na carne, e o coração da rainha vermelha do filme da Alice se apresenta bem cabeçudo para que seja depurado e transformado a partir da aceitação. Afinal, bruxa que não consegue mudar a si própria, não consegue mudar ninguém, e mudança é um assunto totalmente pertinente na bruxaria, pois trata-se de transformações. E isso é um assunto justo, desde que a justiça é uma constante e firme vontade de dar aos outros o que lhes é devido, portanto, comece consigo mesma, afinal, ninguém dá o que não tem. Perceba que a justiça, para nós, não é cega. Então comece: Você está sendo realmente justa consigo mesma? A partir do não, enxerga-se que também não está sendo justa com os outros, portanto, não julgue ninguém, nem a si mesma.... caso contrário acabará no calabouço espiritual onde é a fonte de quase todas as doenças da alma, coisa aliás, que o mundo está cheio.

É notório de todo iniciado, que nas narrativas esotéricas, se lê ou se assiste algo sobre a ‘morte do ego’, que individualiza a tela a qual se assiste, mas para quem não sabe de fato o que é o ego se torna quase impossível reconhecer o seu próprio ego e saber como ele se manifesta. Então, como domá-lo?

O segundo trabalho de mestre, a bruxa faz consigo mesma, ela PODE ser sua própria obra prima.

Em primeiro lugar é necessário estar com a mente bastante aberta e aceitar o que vier, até demais, e assim conseguir receber todos os tipos de críticas, tanto negativas quanto construtivas sem se abalar, e aceitar que está fazendo auto conhecimento pela ótica alheia, como o feed back que as pessoas lhe dão ao serem sinceras ao falarem de você para você ou para alguém. O que se deve fazer quando isso ocorrer? Simples, aceitar e calar-se para refletir, e principalmente aceitar sua parcela de responsabilidade sobre o ato que deu causa ao ‘diz-que-diz-que’. Tomar certa distancia da situação, refletir com sinceridade sem ser autocondescendente muito menos punitivo, abraçar sua sombra, seu lado avesso, seu duplo, aquele da negação, e aceitá-lo enquanto se aceita. É aqui que se faz amizade com seu inimigo, uma vez que seu inimigo é você mesmo, e assim deixar de ser inimigo e deixar de ter inimigos, é uma fase de pacificação, é a ‘domina’ do ego. Nessa altura você deve estar dizendo e/ou perguntando a si própria: _“nossa, como eu sou mal, como fui cruel todos esses anos com as pessoas das quais eu deveria ser exemplo de amor?!!”...Bem, aprender a ser bom nunca foi tão fácil.

A partir daí, você olha para dentro de si e o que se faz depois de se reconhecer como uma Megera devassa mal amada e terrivelmente punitiva de si mesma e dos outros? Eu disse mal amada por saber que, se você chegou nessa fase, certamente irá reconhecer que nem você se deu amor à si mesma, por isso, mal amada no sentido amplo e literal da palavra. Sua autoestima nessa altura do campeonato, quase nem existia, você deve recuperá-la com a mesma sapiência anterior, usada no início desse trabalho, e claro, a fortaleza. A fortaleza alude a virtude da Força no coração, que assegura a firmeza dos propósitos durante as dificuldades e a constância na procura do bem.

Como fazer isso? Simples: Se autoafirmar como ‘A Bruxa’ de fato, a megera ou melhor, Medeia. Não há bruxa boazinha antes disso, até porque, não se sabia o que era de fato ser bom de verdade. William Blake tem uma frase sobre isso que eu gosto muito: “Quem faz o bem ao outro deve fazê-lo nos mínimos detalhes. O Bem geral é a justificativa do imoral, do hipócrita e do falso!”. Ter um coração de Medeia significa ter um coração forte, destemido, e muitas vezes até frio, para que se possa fazer o que tem de ser feito.

De nada adianta a pessoa ser inteligente, e não amadurecer a inteligência emocional, retirando os ciscos dos olhos junto com todo romantismo que há em colorir a vida. Platão já dizia que só se pode enxergar a luz, a partir das trevas. Aliás, o conceito teológico das quarto virtudes cardinais, foi derivado do esquema de Platão.

Até mesmo a doutrina da ICAR reconheceu as quatro virtudes cardinais, que adaptou o esquema pagão vindo de Platão, com os pensamentos de Santo Ambrósio de Milão, Santo Agostinho de Hipona e São Tomás de Aquino.

Justiça

Você deve estar se perguntando: _”mas o que a igreja tem a ver com paganismo e bruxaria?”... Tem tudo a ver. Para além de muitos bispos e papas serem bruxos nas escondidas noites, o bom reconhecimento de fatos históricos nos revela, ainda que ocultados da massa, que a igreja insípida além de conter muita magia, foi nada mais nada menos que a continuidade do paganismo, absorvendo praticamente 98% do paganismo, sem falar que sempre foi a Igreja quem deu o diploma de bruxa, para a bruxa, desde que eram eles próprios, os correligionários da igreja quem as apontavam, para depois persegui-las, afinal, nessa época os padres podiam se casar e muitos filhos dessas megeras tinham como pai, ninguém menos do que o próprio Papa, e a confusão era criada na hora de herdar o trono papal, uma vez que esse direito era hereditário. A frase “mulher de padre vira mula sem cabeça” veio desse episódio que deixava a igreja mais pobre toda vez que a mulher viúva ou o filho dela herdava os bens do santuário papal.

De acordo com a teologia aceita, foi dito que as quatro virtudes cardinais são perfeições habituais e estáveis da inteligência e da vontade humanas, que regulam os nossos atos, ordenam as paixões mundanas, e guiam a conduta humana segundo a razão e a fé, adquiridas e reforçadas por atos moralmente bons e repetidos, são purificadas e elevadas pela graça divina.

Essa é a parte mais terrível pela dificuldade que se apresenta, pois os medos vão dar as caras, mas é uma vivencia absolutamente transformadora para quem enfrenta seus medos. É onde o ser humano ganha o dom de mudar seus passos, melhorar seu caráter, e abandonar a paixão pelas dores, pela vaidade, pelos sentimentos mundanos, e se tornar um deus na Terra. E nada disso pode ser feito se não houver coragem.

Não é fácil porque simplesmente a bruxa verá outros que estão no mesmo degrau (ou degraus de sabedoria diversos) apontarem ‘defeitos’, tantos seus quanto dos outros. Essa é a primeira armadilha do ego. Note alguém tecendo juízo de valor de forma negativa e cale-se frente a isso sem julgar, colocando um cabresto no cavalo desse seu ego, mas basta entrar na mesma vibração desse apontamento e abrir a boca fazendo a mesma coisa, e verá que seu trabalho terá sido em vão, tijolo por tijolo deve ser construído com muita atenção e autopoliciamento.  Ninguém deve substituir um terapeuta ou analista achando que já sabe se controlar por dentro. Eu incentivo buscar apoio de um profissional enquanto se faz esse trabalho ou sempre que se fizer necessário, principalmente para quem faz um trabalho desse sozinho sem apoio de um Covine Tradicional. Doar amor e se calar para as mágoas, não são tarefas para qualquer um. Aqui sim você pode reconhecer seu privilégio e ainda assim deve permanecer calado frente a esse reconhecimento.

Força
Falar sobre tudo que está acontecendo ao seu redor, nessa fase, também não é fácil, desde que, quem irá ouvir pode não estar pronto para lhe ouvir ou para lhe ajudar. Eis mais uma armadilha dos solitários que requer muito cuidado! A sensação de desamparo se funde com a fortaleza e o risco de se perder no caminho, aqui é bem maior.

Nos Covines, o trabalho é feito solitário e vivido em grupo, uma vez em que é ali onde as situações acontecem em primeiro lugar, e é também ali onde se deve consertar, desde que é para existir amor e confiança absolutamente entre as partes. Ainda que o trabalho seja em grupo, cada membro faz sua parte sozinha e responsável pelos seus atos, no fundo, você sempre estará exilado, pois é a partir disso que se deparam com seus pares e seus iguais.

Aos poucos, tudo que era real vai perdendo realidade e abre espaço para uma nova realidade onde se manifesta maturidade, e então a bruxa passa ver que a dor que sentia antes não era tão real assim, mas uma ilusão sentimental, ela toma contato com aquilo que chamamos de: “O ego te enganou mesmo”, ou seja, foi vítima de si mesma, do seu próprio ego.

Cada etapa é fundamental para se conhecer o seu ego e domá-lo pois o ego é como um cavalo desenfreado. Saber como ele é e como ele age, após saber com quem estamos lidando podemos resolver aquilo que deixamos ser real e o que não é.

A mente da bruxa é uma caixa de Pandora, e quando a mente se alinha ao coração, muita confusão pode ser sanada, mas também muita confusão pode ser feita, e muita confusão pode ser notada ou não. Todos os seus falsos alicerces caem por terra quando se põe o pé na estrada da transformação, e o que sobra disso é a construção de um novo alicerce, real e criado solidamente pela própria bruxa, e esta fase comporta uma baita insegurança, pois não se sabe como agir quando não se tem mais onde se segurar, o apoio já não existe mais. Há que se fazer uso da temperança, que nada mais é que Moderação, a quarta virtude que modera a atração dos prazeres, tudo aquilo que sua essência atrai para si, com ou sem a ciência de sua mente consciente, e assegura o domínio da vontade sobre os instintos e proporciona o equilíbrio no uso dos bens criados (os alicerces). O ego, em alquimia é representado pelo ferro de Marte, o metal que seu irmão Vulcano joga no fogo da transformação.

Temperança
Romper com os vícios, romper com as paixões, principalmente quando esta paixão é pelo objeto do ego, quando se está apaixonado pelas suas próprias dores emocionais ou juízo de valor, ou pior quando se está apaixonado pelos seus vícios, de autoimportância superestimada, elegendo inimigos fora de si mesmo, ou estar apaixonado pela dor física ou sentimentalizada, romper com tudo isso sem fazer uso das virtudes é suicídio. Contudo, essas condições mudam quando se nota que o real não existe mais, e que somos todos passageiros de um planeta onde se deve viver aparentemente como desiguais, sem o sermos de fato em algumas semelhanças.

Eu sei que sua dor é Real, pois toda dor coroa a cabeça dos vencedores com a nobre Realeza.


Sett Ben Qayin


As imagens são das virtudes cardinais como esculpidas na tumba do Papa Clemente II na Catedral de Bamberg: Sapientia (Prudência); Iustitia (Justiça); Fortitudo (Fortaleza); e Temperantia (Temperança).

terça-feira, 20 de novembro de 2012

A Cura pelo Totem




De forma geral, o totem é revelado ao indivíduo através de uma visão, durante a observação do rito de passagem da segunda colina, ou seja, a adolescência. É um animal ou planta, escolhido como protetor e guia, a exemplo de um antepassado com quem se institui um elo de parentesco, com todos os direitos de deveres que isso implica.

A palavra totem é um termo algonquino. Sua verdadeira significação é: Guardião pessoal ou poder tutelar pertencente a um homem considerado individualmente. É frequentemente representado na sua medicina (pacote-fetiche) ou pintado sobre suas roupas ou objetos pessoais sob a forma de um retrato ou de um símbolo. De acordo com Schoolcraft, o termo totem, é um desenho que corresponde aos emblemas heráldicos das nações civilizadas e que cada pessoa é autorizada a portar como prova da identidade da família à qual pertence. É o que demonstra a etimologia da palavra, derivada de 'dodaim', que significa aldeia ou residência de um grupo familiar.



De nenhuma forma é hereditário ou genealógico; nada tem a ver com a organização social da tribo ou clã... Não tem relação alguma entre o totem concebido dessa forma e o fenômeno social do totemismo, da maneira como o tratamos correntemente.

Teoria hoje em dia bastante contestada, o totemismo foi considerado como a forma primitiva de toda religião e de toda moral. Era a fonte dos tabus e do proibido, que teriam formado o primeiro elo e primeiro modelo de organização das sociedades humanas.

Sem cair em generalidades abusivas, podemos encarar o totem como o símbolo de um elo de parentesco ou de adoção, com uma coletividade ou um poder extra-humano e natural.

Há uma relação de pertinência, até mesmo de identificação, entre o iniciado e seu totem, sua alma do mato. Através dos ritos iniciáticos, explica a corrente de pensamento Junguiana, o indivíduo toma posse de sua alma animal, ao mesmo tempo em que sacrifica seu próprio ser animal na cisão esférica. Após esse duplo processo, o iniciado é admitido no clã totêmico e estabelece relação com seu totem animal. Sobretudo torna-se maduro diante dos mistérios num sentido mais amplo, um Deus vestido de ser humano.

Algumas tradições mágicas evocam a transmigração (ou metempsicose) de personagens divinos, que passam de um estado a outro, com uma intenção bem definida: transmitir um saber ou uma herança tradicional.

É o caso do irlandês Tùan Mac Cairill, que é, sucessivamente, veado, javali, falcão, salmão, a cada vez durante trezentos anos. Pescado por um servo e consumido pela rainha da Irlanda, reinava enfim sob a forma de Tùan; viveu do dilúvio à chegada de São Patrício e transmitiu todo o saber que acumulou durante esse tempo.



Em um célebre poema, o Kat Godeu ou Combate dos Arbustos, o poeta galico Taliésin, que deve ter vivido por volta do século VI, evoca todos os estados em que viveu: espada, lágrima, estrela, palavra, livro, luz. Mas a metempsicose, que os autores antigos confundiram mais frequentemente com a imortalidade da alma, devido a suas tendências racionalizantes, são reservadas somente aos deuses. Deve ser bem diferenciada das metamorfoses acessíveis aos humanos, que podem chegar à imortalidade somente no Mundo do Além.

A transmigração aparece como uma expressão misteriosa dos múltiplos estados do ser.

Aparentemente todas as coisas existentes, inteligentes ou não, são em parte, criações da primeira alma criadora das existências, e todas elas possuem um tempo de vida, para migrar então, noutra. Assim, passamos de pó à concreto, de líquido à sólido, de pedra à mineral, de mineral à vegetal, de vegetal à animal, de animal para deuses. Essa jornada, em parte, é atribuída aos totens que recebemos juntamente com sua compreensão. Em cada uma dessas paragens é vivenciada todas as formas nela existentes, ao exemplo: todos os tipos de pós, todos os tipos de forma concreta, todos os tipos de líquidos, todos os tipos de sólidos, todos os tipos de pedras, e assim por diante, até todos os tipos de humanos, para então se tornar uma espécie de deus que não precisa mais migrar.

Dessa forma, os deuses na terra se reconhecem como uma das formas dessa evolução inteligente que progride de maneira a não desprezar aqueles ‘não inteligentes’, justamente porque sabem de onde vieram. São almas criadas em espírito santificado, que tratam da jornada espiritual para compreensão mais elevada do caminho que cada qual precisa trilhar, encerrando mas não terminando, no último dos limites onde a ‘Nous’ abarca a última compreensão por não mais caber dado conhecimento naquele vaso material-espiritual.

A felicidade consiste num estado em que, concluído o mecanismo transmigratório, o destino não mais seria colocado em questão.

A transmigração é o símbolo da persistência do desejo, seja qual for a sua forma. O ser em que a alma pode transmigrar revela o nível do desejo a que esta se encontra ligado. A transmigração é uma forma de expressar a lei da justiça imanente e das consequências de todos os atos.  

A roda da existência, a roda da Fortuna, ou roda do Destino, possuem alguns estados mais previlegiados que outros, superiores e inferiores, e todos esses estados de pós-morte podem ser vivenciados no mundo cotidiano. O Bardo Thodol, em ‘O Livro Tibetano dos Mortos’, é antes de tudo, um guia para os vivos, capazes de ultrapassar a morte e transformar seu processo em ato libertador.

A prática da transferência de consciência permite dominar o princípio consciente, tanto antes e depois, quanto durante a travessia do Bardo, em uma duração simbólica de 49 dias.

Para o ser perfeitamente desperto, duas escolhas se apresentam: fundir-se no Nirvana ou então, caso possua um ideal de Bodhisattva, retornar lucidamente à terra, escapando ao ciclo do Samsara, com o objetivo de auxiliar os seus semelhantes a se livrarem do mundo do sofrimento. Eis a cura pelo Totem como um dos ofícios da bruxa.

Sett Ben Qayin

Obs – Usei alguns termos do ‘Buddha Dharma Teravada Sânscrito’ bem como passagens retiradas de ‘O Livro de Taliésin Bem Beirdd – 1275’, propositalmente, para fazer alusão à forma de compreensão mais clássica da linguagem esotérica, no qual 99% dos leitores estão acostumados, ou obtém fácil acesso à sua significação.  

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A Disputa pelo Poder - Júpiter, Saturno e a Lua Negra

O Carro de Saturno

O que significa Júpiter em Gêmeos, Saturno em Escorpião e Lilith em Gêmeos?


Sente uma turbulência no ambiente? Saturno chega pra disputar com Júpiter. 

Você já olhou no seu mapa astral pra ver onde você tem Saturno e Júpiter, e o que isso implicará nos próximos meses?

Parece que ninguém faz mudança sem antes constatar o que não está bom. Para quem não tem compromisso com o erro, é tempo de consertar, e os 3 “R’s” estarão em voga: reajustar, reparar e restaurar, uma vez que as lições tendem a se repetirem quando não aprendemos.
Júpiter fica 1 ano em cada signo, e está transitando sobre o signo de Gêmeos desde 11 de junho de 2012 e vai até junho de 2013. 

Júpiter é o maior planeta do sistema solar e astrologicamente sua influência faz expandir o efeito de todas as coisas com as quais entra em contato. Conhecido como o planeta da sorte, Júpiter representa a riqueza, a fortuna, a fartura e abundância, por isso está relacionado aos temas ricos, nobres, à honra, prestígio social, protetores e benfeitores que se tornarão notícias nos 12 meses que se seguem desde junho. Mas também representa as qualidades que podem advir da posição social como a generosidade, a opulência, a soberba, arrogância, vaidade, orgulho, e falsa humildade, mas os tiranos, ditadores, e também grandes transformadores e grandes espiritualistas nascem nessa época quando confrontados por Saturno em Escorpião.

E atenção: Júpiter estará retrógrado a partir de 04 outubro de 2012 quando poderão ocorrer muitos retrocessos nas leis, nas regras, na moral, nas viagens ao exterior e assuntos relativos a universidades e os assuntos de clero ou espirituais, e isso vai se intensificar logo no dia seguinte onde Saturno levanta-se do acento Venusiano do signo de Libra para mergulhar nas águas de Escorpião. Assuntos do passado poderão retornar para serem resolvidos e consertados. Até 30 janeiro de 2013 todos os eventos de grandes porte, sejam culturais e esportivos podem sofrer desaceleração ou menor interesse do público. Por frear o crescimento, negócios e grandes concepções poderão estar inviabilizados, e na verdade as coisas parecerão estar ocorrendo de uma forma bem mais lenta e invertida que comumente estamos acostumados.

Saturno é o planeta da responsabilidade e ele sai de libra e entra em escorpião em 05 de outubro de 2012. Quando Saturno passa pelo signo de Escorpião, as pessoas tendem a não ter paciência com nada, e não param pra cheirar as rosas, mas a lentidão será imposta. Saturno fica mais internamente marcial, secreto, astuto, rancoroso, ciumento e possessivo. O medo da rejeição emocional bate na porta com o fito de se portar da maneira menos eficiente, e isso leva as pessoas com Saturno em Escorpião a compensar em outras áreas forçosamente e às vezes involuntariamente. 

Nessa fase, profunda, a pessoa ou se interessa de vez ou repudia de vez assuntos como ocultismo e mistérios, passa uma imagem de entrega, mas fica somente na imagem, pois na verdade ela terá medo de se entregar e vai adotar a postura autodefensiva. O julgamento do outro se torna cruel. Saturno e Marte são os dois maléficos do zodíaco, e Escorpião é regido naturalmente por Marte, contudo, Marte deixará Saturno zelar pela sua casa nessa época, e o Saturno sabe exatamente o que irá encontrar dentro desse lar marcial. Se você tem Saturno em Escorpião na casa 12, preste atenção no que você estará fazendo da sua vida, pois há grande tendência para a autossabotagem e autodestruição, geralmente essas pessoas se jogam nas sarjetas sem se darem conta dos vícios, drogas, frustrações e fracassos diários, peça ajuda de um profissional ou procure um analista/terapeuta, pois você vai precisar de um.



Saturno cobra a responsabilidade de tudo, aponta a responsabilidade de tudo, e isso às vezes é visto ou sentido como culpa de si mesmo ou alheia. Saturno em escorpião usa o poder pessoal de uma forma desatinada quer no plano emocional quer no plano sexual, estabelecendo paranoias e um pano de fundo onde o drama tem potencial para convencer até si mesmo. Impotência ou frigidez, somados ao sentimento de vingança pelas injustiças sofridas terão sua vez. O psicológico fica perturbado e algumas pessoas podem sentir um clima perturbador antes mesmo da data 05 de outubro, os mais sensíveis certamente sentirão a diferença no ar como se houvesse algo ‘estranho’ acontecendo. 

De qualquer forma os temas poder, domínio, sexo, doenças/saúde, morte, perda, falência e dinheiro virão à tona sob a guarda do Titã Saturno em Escorpião, podendo tornar os pensamentos negativos que levam a pessoa ao sofrimento e à frustração de seus relacionamentos íntimos, e também fornece ao plebeu aquele puxão de tapete no burguês. Com a combinação de Júpiter retrógrado em Gêmeos e Saturno entrando em Escorpião, a pessoa ou se torna uma tirana de alguém ou se torna o salvador de alguém. Uma entrega à religiosidade fervorosa e cega também ganhará o palco do sentimento, já que as pessoas sentirão necessidade de se apoiarem mais do que nunca em algo concreto, e isso soa mais com uma ‘bengala do velhinho’ no lugar da muleta, ainda que ela não entenda o que se passa.

De um modo geral haverá grandes preocupações com ameaças sejam elas sociais ou não, econômicas ou militares, além de profundo interesse pelas coisas ocultas, pelo poder e pela corrupção, mas quem estiver no comando também poderá afadigar-se com o poder no seu nível mais elevado, e também ter envergadura para extirpar da sociedade as práticas corruptas ou ineficientes, ainda que sinta que está sendo submetido você mesmo a defloramentos prejudiciais e desagradáveis de poder. Saturno tem a tendência de sempre inverter as posições sociais, como na Saturnália, então fique atento, pois quem está lá em baixo pode subir repentinamente e vice-versa, e por fim há uma tendência de sentir as coisas mais amarradas e demoradas que o normal, pois Saturno é o velho lento e sábio, que come pelas beiradas e vem nos ensinar as lições que nos arrancam o sangue dos olhos da alma.

Ainda faltou mencionar que Lilith entrou em Gêmeos há 15' atrás, e disso resulta um salto para a prostituição sexual inconsciente e gratuita, para alguns, e uma frustração sexual para outros. A expectativa e insatisfação ligada a todo tipo de comunicação com o seu meio, tanto amigos, família, amor e trabalho, seja verbal, corporal ou sexual, com um aumento da vontade de ‘obter’ livros e não conseguir ler todos, obter a posse de um tudo e não dar conta de administrar o seu todo em sua verdadeira entrega ao propósito. No plano sexual, se não tomar cuidado haverá uma forte tendência de se jogar na cama de todos os interessados sem levar em conta se os interessados também estão interessados em você como você gostaria que fosse. 



Pode sentir insatisfação em manter amizades que antes lhe traziam grandes alegrias, mas de repente essas amizades perderam o sentido de existir na sua vida. A lição que Lilith em Gêmeos nos traz, é sempre do ponto de vista do desapego e impessoalidade, a lição de se doar mais e com afinco à uma relação já aparentemente desgastada, seja com a mãe, seja com amigos, a relação aparentará desgastada até que Lilith saia de Gêmeos e entre no signo seguinte. A casa onde Lilith se encontra é aquela que a pessoa precisa se desapegar, sendo impessoal, porque ela já viveu tal assunto de forma intensa, então, com Lilith na casa de Gêmeos, certamente os Geminianos se sentirão abandonados ou deixados de lado, mas como eu disse, eles se ‘sentirão’, pois isso é mais uma aparência emocional a ser sentida por eles do que uma realidade.

Você já está sentindo um peso nas suas águas? Ou seria um desconhecido medo interno dando as caras? Coragem! Saturno fica 2 anos e 9 meses em cada signo, mas a sensação temporal parece uma eternidade, os prejuízos são certos, mas só aparentemente pois na verdade tudo estará onde e como tem de estar, desde que tudo isso faz parte do eterno balanço da vida.

Sett Ben Qayin

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A verdade sobre a Lua Azul



FELIZ BELEWE MOON!




Betrayer é substantivo que tem como significado: traidor, renegado, Judas, sedutor, revelador. A verdadeira LUA AZUL é Belewe Moon, a LUA DA TRAIÇÃO ou "Betrayer Moon". A lua azul se refere à terceira Lua cheia de uma estação com quatro luas cheias. Não é errado usar o termo para se referir à segunda lua cheia em um mês, mas também não é o termo correto.
A Lua Azul não é uma lua que muda de cor, ela não fica azul, o termo foi cunhado para se referir à lua das fadas, uma lua onde os poderes dos mortos ganham a nossa atenção, enquanto somos tutelados por eles.
Rituais de desafronta ou reparação são praticados e mais poderosos na noite da Lua Azul.



Sett Ben Qayin



sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A Iniciação e a Transmissão do Poder Hereditário – parte 2




PARTE 2




- A Morte, O Poder e a Nova Vida –

A morte é necessária para uma iniciação, para que haja uma ruptura entre a velha vida e a nova vida que se iniciará. Aqui a morte é o aspecto destrutivo e perecível da natureza. Ela indica aquilo que desaparece na evolução irreversível das coisas, e está ligada á terra, mas a morte é em si mesma a introdutora aos mundos desconhecidos dos Infernos e Paraísos, e nesse aspecto ela se aproxima dos ritos de passagem.

Ela é introdução e revelação. Todas as iniciações atravessam uma fase de morte, antes de abrir o acesso à uma nova vida. A morte liberta das forças regressivas, desmaterializando o negativo, o que não tem mais que existir, e libera forças de ascensão do espírito.

Se ela é por si mesma, filha da noite e irmã do sono, ela possui, como sua mãe e seu irmão, o poder de regenerar. Se o ser que ela abate vive apenas no nível bestial e material, ele fica nas sombras dos Infernos; se, ao contrário, ele vive no nível espiritual, ela lhe revela os campos da luz. A vida e a morte coexistem em todo ser humano e para todo ser humano, ou seja, há uma tensão entre duas forças contrárias que se amam, se renegam, e não ‘são’ uma sem a outra.

Dispater (Plutão no mito romano) do qual fala César no De Bello Gallico, e do qual todos os gauleses se dizem descendentes é em princípio o mesmo Deus da Morte, e tem a mesma função para todos os países e culturas bruxas. A simulação dramatizada em todos os ritos iniciáticos deve ser tão bem feita quanto possível, provocando a catarse transformadora, a transmutação de valores, cuidados e amor, requisitos primordiais e eternos que são condutores da desgraça de qualquer falso alicerce que permeou a mente, o coração e o espírito do indivíduo enquanto grilhões ausentes de virtude do Espírito. O Deus da Morte é o pai da raça Bruxa, e a contraparte sombria da divindade soberana de acordo com Ógmios ou Ogme.

A alegoria da morte na Bretanha armoricana, o Ankou, é a continuação do condutor dos mortos da dança macabra da Idade Média e, apesar da cristianização, do Ógmios condutor dos mortos, o executor das forças mercuriais, e por isso, o mistério da morte é tradicionalmente sentido como angustiante e figurado com traços assustadores. É levada ao máximo, a resistência à mudança e a uma forma de existência desconhecida, mais do que o medo de uma absorção pelo nada. A morte se justifica em si mesma, sem ser o fim absoluto ela mesma.

Em Pausânias, Descrição da Grécia, 10, 28-31, Eurínomo figura a morte devastadora em um gênio infernal, cuja função é devorar a carne dos mortos e não deixar senão os seus ossos. O direito de vida e, de modo correlativo, o direito de morte pertencem aos deuses. As principais divindades letíferas, depois de Júpiter, são Minerva, Apolo, Diana, Marte, Hécate e Prosérpina. Faço um parenteses para lembrar que Lupercus é filho de Marte.

A morte é personificada por Tânatos, filho da Noite e irmão do Sono, arisco, insensível, impiedoso. Na iconografia antiga a morte é representada por um túmulo significativo do último lar ou portal para o submundo, com uma divindade armada com uma foice saturnina devorando um ser humano entre suas mandíbulas, um gênio mercurialmente alado, dois jovens, um negro, o outro branco, um cavaleiro, um esqueleto, uma dança macabra, uma serpente ou qualquer outro animal psicopompo (cavalo, lobo, cachorro, etc).

O número 13 é o número da morte, e os dois também aparece no tarô, e com efeito, sua significação é maléfica, constante na idade média cristã, já aparecia na antiguidade simbolizando o curso cíclico da atividade humana, a passagem a um outro estado e, por consequência, a morte, e tudo isso está no poder que se recebe na passagem do dom, onde se herda os dons transmitidos pelo seu iniciador, ou como quando se recebe o legado cuja posse desse poder é compartilhada ou soprada pela vos, transferida de artéria para artéria, de espírito para espírito, de corpo para corpo. O poder que a morte fornece é a maldição da qual só os sábios podem transformar em benção.


O Ceifeiro da morte exprime a evolução importante, o luto, a transformação dos seres e das coisas, a mudança, a fatalidade (The Fate action) irreversível, e de acordo com O. Wirth, a desilusão, o desprendimento, o estoicismo, ou o desencorajamento e o pessimismo. 

Jean Vassel constata em “Études Traditionnelles” nº 278, setembro de 1949, p. 282, que A Morte constitui uma cesura na série das imagens do Tarô, vindo, em seguida, os arcanos mais elevados, de tal modo que se pode fazer corresponder os 12 primeiros aos pequenos mistérios, e os seguintes aos grandes mistérios, já que fica claro que as lâminas que a seguem têm um caráter mais celeste do que as que a precedem. 

Como o Mago, a Morte corresponde na astrologia à primeira casa do horóscopo. Em sua constituição, a lâmina da Morte possui um esqueleto armado de foice, suficientemente eloquente para não necessitar comentários, todo cor de carne, e não ouro, um pé afundado na terra, tem na mão esquerda uma foice de cabo amarelo e lâmina vermelha, cor de fogo e de sangue, o sangue da linhagem que segue, para nos advertir de que a morte de que se trata não é a primeira morte individual, mas a destruição que ameaça a nossa existência espiritual se a Iniciação não a salvar de si mesmo e da aniquilação que isso causa.

Sem mais delongas, ficarei devendo um assunto o qual deixarei para o próximo ensaio, mas como a morte não é um fim em si, ela abre o acesso ao reino do Espírito, por isso todas as coisas espirituais só podem ser acessadas após a morte, que revela a vida verdadeira, como mors janua vitae (a morte, porta da Vida). 

Com ela há uma mudança profunda que o indivíduo passa por efeito da iniciação, o profano deve morrer para que renasça à vida superior conferida pela iniciação. Se não morre para seu estado de imperfeição, impede para si próprio qualquer progresso iniciático, e não há rito iniciático que não a contenha em seus episódios iniciatórios, ali, a serpente troca de pele, o lobo troca de pelo, a ave troca de pena, a lagarta vira borboleta, a fênix volta das cinzas, o barro vira lama a ser descartada, os vícios viram virtudes em poder, o chumbo vira ouro, e o olhar para o mundo é o da nova vida, uma vida inteiramente jovem e diferente, com propósitos mais elevados, novas metas, novas possibilidades, novos objetivos, novos nomes, novas pessoas, novos caminhos, novo por dentro e por fora, novos alicerces, etc., e por fim, há que se convocar um morto para viver novamente!

Sett Ben Qayin


A Iniciação e a Transmissão do Poder Hereditário – parte 1




PARTE 1

Por que a morte é necessária para que haja a iniciação?

De onde veio a ideia de contrafazer a morte e seu drama durante um ritual iniciático formal?

Por que o sangue é um dos veículos do poder?

Como é feito a passagem do poder hereditário na bruxaria hereditária?

Quem deve deter o domínio de curador do feiticeiro ofício hereditário e o por quê?

É necessário que haja vocação e dom para se tornar o sucessor no comando da linhagem?

Quem oficializa os ritos, é sempre a mesma pessoa? O ofício bruxo é uma obrigação?

Todas essas questões serão abordadas sem a pretensão de serem sanadas, mas que essa abordagem seja a gota da sangria que irá abrir um leque para futuras discussões, a partir desse ensaio.

Antes de tudo, é indispensável lembrar que nenhuma família é igual à outra, e consequentemente nenhuma arte hereditária é idêntica à outra. Obviamente aqui, limitamos a explanar o ofício da arte hereditária da família Lupino.


- O Início -

Algumas pessoas se casaram com um membro consanguíneo da família Lupino em algum momento da história dos Lupinos, e geraram filhos e filhas com o sangue e sobrenome Lupino, porém, nem todos os detentores do sobrenome e sangue Lupino herdaram a Arte Bruxa, mas da raiz dos Lupinos, os que herdaram são bruxas/bruxos Lupino. Se faz necessário lembrar que lá atrás, dita a tradição, que o Lupino que iria dar continuidade a linhagem recebeu a transmissão do poder pelas mãos de uma bruxa, Andreana Lupino, nascida em 1.800 em Santa Maria Maggiore, Benevento- Itália, a qual passou o dom antes de morrer para um de seus descendentes, e julga-se que este tenha ensinado os demais. Ate então, ninguém sabia quem era o descendente selecionado, até que anos mais tarde, dentre os sete irmãos Lupino que viviam na Itália, dois foram para Inglaterra, dois para os EUA, um para a França, um permaneceu na Itália e somente um veio para o Brasil.

A família Lupino brasileira teve sua origem quando S. Lupino se casou na época da imigração com M. Loria e vieram para o Brasil. Ela era irmã de Franchesca Loria, ‘strega’ da Congregação de Catanzaro (1899), um tipo de Companhia altamente confidencial devido os problemas da Sicilia Bourbônica. Essa Congregação era hortada por donas que combatiam espíritos e fantasmas usando ocultismo e feitiçaria. Essas mesmas donas eram parteiras e benzedeiras que discutiam seus ‘negócios’ durante assembleias que mais se pareciam com reuniões de senhoras comuns e isso se dava todo último domingo de cada mês, no jardim (ou horta) da casa de cada uma subsequentemente. A junção do sangue de Loria com o sangue do Lupino deu origem ao ‘dom’ como o conhecemos hoje.

Franchesca, quando se viu num entrave psíquico com a amante de seu marido, foi impelida a contar com o apoio de sua família contra um demônio conjurado para amaldiçoar todas as gerações das mulheres Lupino. A bruxa tinha amaldiçoado a família toda de Franchesca, e tudo que sairia do útero delas. Consta que todas as mulheres Lupino – pelo menos até a terceira geração – sofreram com a maldição, pois, da 1ª à 3ª geração dos Lupinos, somente os homens continuaram casados. O nome desse demônio, no entanto, é conhecido somente pelos iniciados, bem como o método desenvolvido para abrandá-lo na tentativa de atenuar a maldição que com o tempo virou uma ‘bola de neve’. A 4ª geração dos Lupinos já existe e estamos para ver na sequencia os resultados.

Diz a tradição que todas as mulheres da primeira e segunda geração da família Lupino nasceram em casa, com parto normal feito pelas mãos de nossa Nona, a Matriarca Mariana, uma senhora simples que adorava sua horta, seu jardim, seu fogão à lenha e seu rosário. Foi notória benzedeira e parteira, conhecida pela eficiência de sua arte na cidade de Américo Brasiliense, interior de São Paulo.

Há muito para ser falado sobre a história da família Lupino, contudo, a tradição familiar Lupino permanece viva até os dias atuais, e algumas bruxas que sustentaram amizade e um elo que transcendiam a carne, com os Lupinos, foram convidadas a conhecer de perto a Arte hereditária, a qual foram devidamente iniciadas, e à essas chamamos de bruxas tradicionais, pois carregam nossa linhagem, certificação e os segredos e mistérios da tradição Familiar Lupino. Hoje, elas se encontram no Brasil em Pernambuco, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, e Rio Grande do Norte, e lá fora estão na Sicília, Calábria - Itália, e em Hampshire – United Kingdom. Apesar de tudo isso confessado, algum Lupino quando é inquirido a revelar se ele é ou não um bruxo, é comum o ouvir negar e desviar o assunto.





- O Ligame –

Diz a tradição, que o vínculo de Ascendência e Descendência sempre marcou a relação entre aquele que está para morrer e aquele que vai substituí-lo por ocasião de sua morte, e dessa preocupação nasceu a necessidade de nomear um sucessor. A ideia da sucessão revela a permanência de uma relação direta que perdura e subsiste a despeito da mudança dos respectivos titulares de uma obrigação familiar ou comprometimento familiar. 

Tudo o que era um bem de família devia continuar na família, e desse ponto surge a entrega e transmissão. Isso remonta um costume muito antigo, obviamente estamos falando de costumes itálicos, antes mesmo da ideia do pátrio poder, que posteriormente foi substituído pelo poder familiar, já existia a transmissão que se efetuava por intermédio da “entrega”, que é a tradição propriamente dita. Numa iniciação entregam-se as chaves secretas (o Bem de família) para o iniciado.

No entanto, isso nunca foi convalidado por família nenhuma, e até onde se sabe não existiam leis ou regras que normatizasse ou regulamentasse esse costume, não se tinha uma tradição organizada ou coesa, pois a tradição era falada, ou seja, a ‘entrega’ era ‘soprada’ no ouvido da pessoa naturalmente por costume induzido pelo Espírito. O esforço de regularizar e organizar tudo bonitinho no que se concerne à uma tradição bruxa, acabou por culminar em ordens mágicas, irmandades mágicas e por último em uma religião para sacerdotes conhecida hoje como Wicca. O único quesito obrigatório a ser observado é a vocação, a investidura, o dom a ser mesclado, e o sincero desejo bilateral de se comprometer com a Arte pelo espírito.

Também diz a tradição que uma bruxa não pode morrer antes de ter transmitido seus dons à um sucessor. Na medida em que entre a vida e a morte se decide todo o complexo destino desse dom, há que se ter um novo guardião devidamente nomeado e investido para recebê-lo em vida. Nossa espiritualidade nos diz que uma bruxa é um anjo caído, um deus aqui na Terra, onde, enquanto ser humano, está limitada fisicamente pelo disfarce encapsulado do corpo material, e isso nos remete ao pensamento de que o homem desaparece, mas os bens continuam, e o bem ou legado de uma bruxa é sua espiritualidade mágica, que quando transferida ou compartilhada com alguém da família ou de sua confiança, permite que ela receba de volta quando cair numa próxima vida, a qual nascerá, crescerá e fará o egresso.

Grande parte das afinidades humanas transmigra para a vida dos que sobrevivem, dando continuidade, via sucessão, ao herdeiro, em infinita e contínua manutenção da memória e conhecimento do morto, em vida, para depois da morte. Por isso o culto aos mortos sempre foi e sempre permanecerá vivo dentre os feiticeiros.




Esse juízo sucessório remonta a mais alta antiguidade, sempre ligado à ideia de continuidade da religião da família ou à investidura do poder familiar. Em Roma, na Grécia e na Índia, a religião desempenha, com efeito, papel de grande importância para a agregação familiar. De acordo com Fustel de Coulanges, a propósito, o culto dos antepassados desenvolve-se diante do altar doméstico, não havendo castigo maior para uma pessoa do que morrer sem deixar quem lhe cultue a memória, de modo a ficar seu túmulo ao abandono. Cabe ao herdeiro o sacerdócio desse culto.

Essa sucessão foi por séculos transmitida apenas pela linha masculina, para o primogênito varão, pois o afastamento da filha se justificava, até, pelo fato de que esta iria se casar, e pelo casamento passaria integrar a família do marido, perdendo qualquer espécie de laço com a família de seu pai, cultuando, inclusive, os deuses da nova família. Mas isso era aos olhos do Estado, enquanto que, na realidade, algumas filhas nunca perderam seus vínculos com a família de origem, e principalmente com suas origens divinas. Essas mulheres, mesmo não podendo oficializar formalmente um rito aos olhos do Estado, aprendiam o ofício de forma singularmente, somando-o aos seus instintos e dons, onde, mais tarde, viria retomar seu lugar no mundo reconhecidamente como A Bruxa.

Demoradamente a religião doméstica foi perdendo o ‘religare’, uma vez que o Estado assumiu o poder governamental e delegou à ICAR o comando para guiar a espiritualidade das pessoas com um ‘religare’ remaquiado, e foi aqui onde houve uma ruptura no pensamento religioso da bruxa, ou pelo menos foi aqui que ela pôde expor sua revolta, uma vez que um ‘religare’ sempre foi dispensável, já que ela nunca esteve ‘desconectada’ de sua fonte espiritual. A partir daí, a religião era desnecessária para as bruxas, dando a religião lugar à tradição, no entanto a bruxa continuou sua arte em segredo e se tornou uma herege, frequentando a igreja rotineiramente para que não fosse perseguida. A era das fogueiras pode nos contar mais sobre as perseguições.

A substituição a qual falamos, cuja sucessão no poder se faz necessária, se dá com o advento da morte. A morte é tão poderosa, que ao final de todo ciclo completado pelo labor, ela oferece a paz em fleuma ou a inquietude permanente, sendo que o único que pode transformar a permanência da inquietude em paz é o poder da morte através de uma mente iniciada. Não há quem possa contra o amor da morte por nós. 


Sett Ben Qayin


sábado, 14 de abril de 2012

Verdade, Juramento e Palavra



Hoje, O Congrega Lupino traz um assunto muito importante a ser refletido por todas as mentes sinceras. E para as que não foram, há uma oportunidade de elucubrar o ethos e seu propósito.

Trata-se da imposição da palavra dada em juramento feito promessa, postado e vinculado originalmente no blog The Starry Cave, de Nicholaj de Mattos Frisvold.

"O homem moderno tende a não dar o mesmo valor a juramentos e promessas. Promessas e mais promessas são facilmente quebradas em alusão a alguma estratégia de auto justificação ou a demonização do outro".

Para dar mais expressão no juramento liga um em um determinado modo de tomar os espíritos como testemunha da verdade, e para ler mais sobre esse assunto fascinante e demasiado importante, clique aqui e boa leitura:


sexta-feira, 30 de março de 2012

A Vassoura da Bruxa

Vassoura da Família Lupino

Muito se fala sobre a vassoura mágica, mas pouco se revela. Nossa intenção aqui não é limitar o assunto mas contribuir com ele.

Na ponta do cabo de dentro da piaçava há um prego banhado na quentura da garra do diabo assim como na outra ponta, onde vc sopra o poder no cabo e o prende com o prego. Vassouras em geral são o símbolo do voo sabático, o cavalo de jacó, símbolo dos cavalos e dos enteógenos de montaria para vôos, e representa o elemento ar, podendo varrer pra dentro ou para fora. Em alguns ritos específicos ela fica no leste onde abre e fecha a porta para o círculo, em outros ritos há que se pular a vassoura para poder voar posteriormente para o Entre-Mundos. A lenda das bruxas voadoras em suas vassouras se originou antes de cristo onde durante um rito para pedir boas colheitas era feito o seguinte: As senhoras mais velhas primeiro e depois as mais novas acompanhavam, no campo já arado e plantado, haviam de pular cada pedaço de terra plantada, montadas numa vassoura e as bruxas desejavam pular bem alto, pois quanto mais alto era o pulo, mais alto era o tamanho da planta que cresceria com a benção da vassoura montada. É um humilde utensílio doméstico na aparência, nem por isso a vassoura é menos signo e símbolo de poder sagrado. Une o fálico com o yônico. Nos templos e santuários antigos, a varredura é um serviço de culto, além de manter o auxílio na limpeza. Trata-se de eliminar do chão e do ar todos os elementos que do exterior vieram sujá-lo, e essa tarefa só pode ser designada para quem tem as mãos puras.

Vôo Lupino

Nas civilizações agrárias da África do Norte, a vassoura, que serve para varrer a área onde são batidos os cereais, é um dos símbolos do cultivo. Nessa cultura, durante os primeiros dias de luto, a casa não deve ser varrida, a fim de que a abundância não seja expulsa ou a fim de não ofender a alma do morto. Na Bretanha, igualmente, não se pode ou não se deve varrer a casa a noite, pois isso afastaria dela a felicidade. Os movimentos da vassoura abençoam ou afastam as almas que vagueiam. Entre as Stregas, além de tudo que já foi falado acima, é muito comum colocar a vassoura atrás da porta de entrada/saída para mandar embora as visitas indesejáveis.

Com efeito, essas vassouras que fazem desaparecer a poeira, poderiam também machucar e pôr em fuga os hóspedes invisíveis, os gênios protetores do lar. A maneira como são feitas e a matéria de que se compõem também não são indiferentes. A árvore de eucalipto é uma das mais escolhidas por alcançar o céu, e dela pode fabricar tanto o cabo quanto a piaçava.  Na Argélia, as mulheres costumam colher na primavera um pouco de feixes de urzes em flor, que se tornarão vassouras de bom augúrio, que não afugentarão a prosperidade e não machucarão por descuido os hóspedes invisíveis. Mas se a vassoura inverte seu papel protetor, torna-se instrumento de malefício, e de acordo com a lenda, montadas em cabos de vassouras é que as feiticeiras de todos os países saem pelas chaminés e vão para o sabá. A vassoura é um símbolo fálico de forças que a vassoura deveria ter vencido, mas que dela se apoderam e pelas quais ela se deixa levar, ou trazer. Em maléfica, o cabo de blacktorn também pode ser usado para criar uma vassoura de maldição e banimento, mas geralmente esse tronco é usado para fabricação de bastões maléficos.

Sett Ben Qayin


terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

HINO LUPINO -


Feche as portas, tu, iniciante, pois fui e voltei do santuário da Noite, que me contou todos os oráculos os quais me colocaria em efeito.

Lá engoli o Phalus da Sétima orbe, que primeiro tinha lançado de si o brilho do céu.

Vinde, abençoado Dionísio, concebido no fogo, mestre de tudo, de muitas denominações.


Tu que te delicias em espadas sangrentas e nas sagradas mênades,
Porquanto urras através de sua montanha celestial, Ó ruidoso e frenético Senhor do vinho.

Armado com tirso em extremo furor, és honrado!

Por todos os deuses e todos os homens que habitam a terra.

Vem, abençoado e saltitante deus, e traga alegria a todos.


Ouça-me, benfeitor Sabazios, ilustre filho do Tempo.


Tu que suturaste em tua coxa o grandioso báquico, o ruidoso Eiraphiotes,
Que ele possa vir inteiro a nobre presença de teu conjuro, ao lado dos que te habitam em nome, em carne, em sangue e em espírito.


Mas, ó abençoado governante dos mananciais de sabedoria e supremo rei de todos os Lobos, Lupercus de Mavors, Vem de coração gentil em auxílio dos seus iniciados, e com o mesmo dom que nos deu para fertilizar os úteros, também permita esterilizar aqueles que nos são ingratos.

Eu sou o filho da Terra e do Céu Estrelado. Estou com sede, dê-me algo para beber da fonte de Mnemosina.

Agora eu estou morto, e agora eu renasço neste mesmo dia, três vezes abençoado. Diga ao mundo, ó Prosérpina, que o próprio Dionísio redimiu a mim, e que nossa vingança será na virtude, a invisível arma de Faunus.

Sett Ben Qayin