terça-feira, 24 de março de 2015

O Auto da fé Bruxa



Por que os seres humanos sempre tem a visão de que eles estão fazendo o bem para alguém? Talvez porque ainda se adota a dicotomia "bem-mal" do sistema judaico.
Algumas pessoas te desprezarão por você pensar diferente. Outras se aproximarão pelo mesmo motivo.
Nojo, repulsa, medo de ser confundido ou de “andar junto”, são premissas que alguns chamam erroneamente de virtudes a serem oferecidas a fim de justificar o desprezo por tal pessoa.

Ao lembrar o auto-de-fé de 1649 que foi talvez o maior “erro” já realizado em nome da fé, vemos e sabemos que espetáculos assim foram e ainda são apenas a ponta do iceberg que culminou e ainda culmina sempre na inquisição. “Mandem para fogueira todos que pensam diferente da gente ou queimem em seus egos por não conseguir conviver com a diferença”.

A diferença é talvez uma das únicas coisas que nos igualam, mas para que se preocupar né? Quem se subtrai de nossa digna presença, não merece mesmo a nossa companhia. Eles dizem: “sejam leais a nós e seremos à vocês”. Lealdade em juramento ou lealdade nas conveniências e invencionices?

Agindo em nome de Deus, em nome de uma fé ou caminho espiritual, de forma dogmática ou rígida, mas movida por interesses políticos de liderança e controle, o fato espalhou a discriminação ao longo de quase sete séculos, e também o medo. Um comportamento de mudanças legítimas não pode prejudicar o outro, caso contrário não há perfeição ou aperfeiçoamento de caráter, mas sim a criação de “vilões, execráveis, criminosos”.

 Os inquisidores e seus representantes agiram na Europa, Ásia e nas Américas, lugares tão variados como as vítimas que perseguiram: judeus, muçulmanos, hindus, protestantes, bruxas, bígamos, homossexuais, sodomitas ou quem quer que cometesse o “crime” de pensar diferente.

Hoje vemos que nada mudou, e pasmem, há gente que se diz “mudar”. Até mesmo na bruxaria vemos inquisidores do próprio sangue.
Falta muito ainda para a tal evolução com progresso no aperfeiçoamento do caráter existir. Mas alguns chamam essa merda separativista de “expansão de consciência”, claro, erroneamente.

Os historiadores fazem distinção entre a Inquisição medieval (ou papal), que vigorou na França, Itália e outros países europeus a partir do século 13, e a Inquisição moderna, que alcançou seu apogeu na península Ibérica entre os séculos 15 e 18. Não há uma data sensata para o início da Inquisição medieval. Ela foi fruto de uma longa evolução na qual a Igreja se sentiu ameaçada em seu poder. Os questionamentos sobre a verdade absoluta do cristianismo, do paganismo e da bruxaria aumentaram a partir da idade média, e os indivíduos que partilhavam dessas ideias foram chamados de hereges.

O termo “heresia” vem do grego hairetikis, que significa “aquele que escolhe”. De fato, na Grécia antiga a heresia era apenas uma escolha do que a pessoa achava melhor para si, sem qualquer conotação religiosa. Se você é lançado na encruzilhada e faz uma escolha que não supre a expectativa alheia, parabéns você é um herege.

Na Idade Média, a Igreja expandiu esse conceito de tal forma que a heresia passou a abranger todas as opiniões contrárias aos dogmas católicos. O combate aos hereges começou a tomar forma com um tratado escrito no século 12 pelo abade Pedro, o Venerável, que chefiava a abadia de Cluny, na região francesa da Borgonha. Ele afirmava que, para eliminar a heresia do seio da Igreja Católica, que chamava de “Corpo de Cristo”, era necessária uma purgação, composta de quatro fases: investigatio (investigação), discussio (discussão), inventio (achado) e defensio (defesa). Aquele era o passo-a-passo da futura Inquisição. “Desse modo, o tratamento aplicado à infecção no Corpo de Cristo começava com pesquisas [daí o termo ‘inquisição’] que os bispos e seus representantes realizavam antes da criação de tribunais especializados”, diz o historiador britânico John Edwards, da Universidade de Oxford.

Para que a caça aos hereges surtisse efeito, era necessário o apoio do Estado. Embora a Inquisição medieval tenha sido idealizada e dominada pelo papa, ela contou com o auxílio dos soberanos. Isso mostra o caráter político das perseguições, numa época em que não havia clara separação entre Igreja e Estado. Hoje em dia a perseguição deu lugar à aversão pessoal e parece que poucas pessoas tem vergonha de se revelar assim, a maioria discrimina enquanto afirma: “você não é um de nós”, ou, "você não vai para o céu", ou ainda, "você não pode andar com a gente, não pode ser um fã dos meus livros como qualquer pessoa e eu não posso ter você no facebook". (risos)

O divisor de águas nessa empreitada foi o 4º Concílio de Latrão, convocado pelo papa Inocêncio III em 1215. Seu principal objetivo era resolver o problema dos cátaros (ou albigenses), um grupo de cristãos do sul da França que contestava os dogmas da Igreja. Ficou decidido que quem se negasse a aceitar a fé católica seria excomungado e entregue à autoridade secular (ou seja, aos funcionários da coroa) para ser castigado, pois a Igreja não podia derramar sangue e, assim o castigo passou invisivelmente para a discernimento, subestimando a nossa inteligência.

Sett Ben Qayin



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