sexta-feira, 31 de julho de 2015

A Transmutação e o Renascimento de um Iniciado



Muitos dos bruxos e irmãos iniciados saberão refletir no que irei escrever, mas principalmente esse escrito é para quem busca iniciação em bruxaria ou em alguma irmandade, fé, ordem mágica ou religião de mistérios.

Se você tem cérebro, então saberá usá-lo.

Uma transmutação é uma profunda mudança ou ainda, uma modificação do estado original. A partir de acumulações ou desacumulações e ocorre de dentro para fora. É uma metamorfose espiritual, uma transformação interna. Bem, os dicionários estão cheios de sinônimos e definições.

Todo bruxo ou bruxa passa por transformações, desde que toma contato com a filosofia bruxa, seus ensinamentos, ethos, modo, conduta de vida, e eu preciso lembrar aqui que a palavra bruxa significa tanto no feminino como no masculino “bruxo” a mesma coisa, senão vejamos:

BRUXO, BRUXA, SÁBIO, SÁBIA, CONJURADOR – CUNNING MAN, CUNNING WOMAN, WISE MAN, WISE WOMAN, WITCH, WIZARD, WICCA, STREGA, CONJUROR

De acordo com os dicionários brasileiros, uma Bruxa ou Bruxo é uma pessoa que faz“feitiçaria”. Esta palavra viria do espanhol BrujoBruja e faria referência a um tipo específico de mariposa. Mas…, de acordo com The Concise Dictionary of English Etymology, de Walter W. Skeat, Witch = do Inglês Witch – Pré-Shakespeare, wicche, ambos masculino e feminino; a wizarda witch; Anglo-saxão: wicce. Aqui wicce é feminino de wicca; e wiccaé uma corrupção da palavra witega, que significa profeta, vidente, também mago, feiticeiro. Ainda na forma Anglo-saxã, wítan = ver, aliado com witan, saber. Similarmente com o termo da Islândia vitki, mago, sagaz, que vem de vita, saber. Os termos Cunning man/womanWise man/woman são termos mais usados na Bruxaria Tradicional do que na Wicca, e significam genericamente “sábios”. Strega é o termo designado para bruxas na língua italiana, e sua origem vem de strix e strie, referências à pássaros de hábitos noturnos. Wizard, termo medieval francês, significa “sábio” (wise man).

Sendo assim, concordamos aqui que a palavra bruxo ou bruxa, significa sábio/sábia.

Isso não quer dizer que somos um compêndio de todos os filósofos e todas as sabedorias do mundo. Apenas significa que sabemos “mover as nuvens do céu”, sabemos a arte dos antigos, as vezes uma única tradição, as vezes mais de uma, como eternos alunos, sabemos que nada sabemos e estamos em eterna transformação, estudos e aprendizado. 

Nos apoiamos nas verdades eternas, alguns se apoiam nas filosofias perenes, ou em seus autores, outros mais tradicionais se apoiam nos ensinamentos transmitidos de forma oral em um determinado aprendizado numa tradição de mistérios ou tradição iniciática.

Após 21 anos que se passaram desde a minha primeira iniciação, a qual foi somada a outras que vieram depois e só acrescentaram e contribuíram para melhorar o meu eu, pude comparar as grandes mudanças reais que sofri ao longo dessa jornada que parece não ter fim.

Nossos deuses sabem o que ocorre conosco, sabem nos posicionar no mundo, nos leva a caminhos tortuosos e por caminhos retos, nos dão a chance de aprender sempre mais, nos colocando ordálias para serem aprendidas e transformadas, nos testam o tempo todo, mas também nos trazem paz, harmonia e satisfação na vida.

Após algumas jornadas espirituais, decidi dar um tempo para mim em reflexão do que valeu a pena e do que não valeu, e cheguei na conclusão de que tudo valeu a pena.

Hoje, com uma paz interior, um profundo e abundante sentimento de contentação e alegria interna, sorvendo a matriz diariamente e trazendo o entendimento do imperfeito e terno mundo esotérico, dos meus erros e dos erros de meus mestres, os quais foram perfeições em sua época, um mundo que traz mais perguntas que respostas e me molda todos os dias, declinando meu ego, curvando a mim mesmo diante dessa enormidade de saberes cuja simplicidade se agiganta diante de mim.

Meus desafios cresceram para aumentar minha paciência, os dissabores cresceram para me fazer aprender os melhores sabores que devo manter em minha dieta esotérica, e as dificuldades não acabaram, elas são agora um outro nível, dificuldades nível 5, são outras charadas ou enigmas que estão para ser resolvidas e assim, meus valores mudam juntamente com a minha visão de mundo. Sabemos que nem tudo o que lemos nos livros se aplica hoje em dia em nossa vida, sendo assim, não adianta citar autores, porque o próprio autor da minha vida sou eu mesmo.


Eu fui me lapidando, vagarosamente, com alguns desafios que aceitei, e outros que não aceitei conscientemente, desde que não é impondo desafios a mim que um ser humano vai ganhar meu respeito, ensinar não é impor desafios, ensinar é transmitir o conhecimento, o resto vira desafio por si mesmo.

Hoje, eu olho mais para dentro de mim, com mais atenção e clareza, para perceber minhas sombras e meus brilhos. O mundo não é mais tão nebuloso como antes, e meu sentimento de amor próprio só aumenta a cada dia e por isso posso doar esse amor.

Eu não fiquei melhor que alguém, eu fiquei melhor do que meu eu era antes. Esse sempre foi o mais terrível de todos os desafios, não concorrer ou se equiparar com os outros e sim comigo mesmo. É por isso que os desafios não se impõe a ninguém, já que ninguém pode viver o mesmo desafio igualzinho. Não existe nada mais estúpido que criar uma irmandade para impor os mesmos desafios a todos, pois beira a loucura, senão a prisão de uma caixinha onde se exclui todo o resto do mundo.

Não é o diploma ou a quantidade de iniciações que vale para impor respeito, já que, se esse monte de iniciações não serviu para te melhorar enquanto pessoa e ser humano, então só serão um amontoado de certificados que não servem nem para limpar a bunda. Então aqui nesse ponto vejo a real diferença entre o significado de exotérico e esotérico na vida de alguém e o que esse alguém pode me transmitir de verdade quando eu humildemente pude deitar minha cabeça para contemplar a tal sabedoria que me seria transmitida.

Hoje meus dias ficaram mais coloridos, pois pude abraçar mais cores que antes, tudo foi magicamente ficando menos complicado, mais simples. Meus valores passaram por uma peneira para receber todas as gotículas que cairam da peneira sem misturar umas com as outras, elas caíram inteiras como são, se aglutinaram sem se misturar, somaram um conjunto maior sem perderem suas essências.

Fui vagarosamente desapegando do supérfluo e valorizando mais a vida simples, mudei até de nome civil, de amor, de residência própria, de carro e até de emprego. Essa mudança me trouxe melhorias que pôde se manifestar no mundo ordinário, são mudanças reais que se comprovam, não essas balelas para encher livros.

Metafisicamente são manifestações de mudanças e bilocação de estados filosóficos e alquímicos que os próprios deuses conduziram com minha permissão.

Digo “manifestações”, porque não há real incorporação, mas sim é de dentro para fora, por isso os deuses se manifestam para nos conduzir. Quando há um deus ou deuses fortes, a vontade dos outros não predomina sobre a nossa vida.
Essas mudanças me trouxeram um real comando sobre os meus instintos primitivos, sobre meu ego, de tal forma que a vaidade dos outros não me comove mais. Presto mais atenção em mim e no recado que meus deuses e orixás querem de mim ou para mim.

O ar que respeito passou ficar mais doce e perfumado devido a pureza que se encontra, a água que desce pela minha garganta dissolve realmente a sede, e ela nem precisa estar gelada, a comida passou a ter mais sabor independente se tenho ou não o que quero na geladeira. Meus sentidos, os sonhos, os desejos e até mesmo as ambições, me desapeguei de tudo ao fundir-me com o todo. Isso significa que não quero controlar, mas interagir e esse fluxo de energia sobe e desce e torna a subir novamente compondo a canção mais linda, a música da minha vida.

Eu sinto que estou vivendo melhor. A qualidade de vida não está em parar de fumar, mas sim dentro da gente. Quando se está bem por dentro, não há nada exterior que possa remover esse estado, porque tudo está dentro de nós e de lá deve vir, de lá deve se manifestar. Esse é o propósito da criação e do sagrado que me rodeia, é permeado pela fonte que habita em mim.

O respeito para comigo mesmo, me faz ser respeitado pelos outros. O carinho das crianças, o olhar dos mais velhos, os idosos e familiares, os animais e o todo sagrado que me cerca.

Não é a toa que os verdadeiros iniciados afirmam que temos a sensação de viver uma outra realidade. Isso é real.

Quando faço minhas orações, para deusa, para os deuses, para os voduns, para meus ancestrais, para os tutelares e patronos da transmissão do sangue real, sinto, vejo, ouço e recebo, a sensação é absoluta de integração e interação, é um gozo espiritual nunca antes experimentado, ou se experimentei foi em níveis menores. Não pode haver um livro com a minha vida escrita nele, meu destino está sendo criado por mim, com as palavras e gestos sublimes de poder, honra e honestidade, não há vergonha em ser honesto, sincero e humilde.

Meu porão foi limpo e a cada vez que abro as portas do porão, tenho orgulho de deixar que vejam como está lindo, limpo e leve.


Não há o porquê de ser um sacerdote se não existir isso no coração dele. É um amor que me faria dar beijos até na mais profunda escrófula para que ela se curasse.

Somos passageiros aqui na Terra, não há o porque de exigir alguma coisa de alguém, desde que o que vamos levar conosco é sempre algo leve, que não pesa durante o voo, é algo que não nos faz cair. Quando um ori está feliz, todos os outros ficam felizes.

Eu sei que há novos desafios pro meu amanhã, e eles podem ser abraçados e previstos por mim, porque não há nada melhor do que deixar o medo do amanhã se dissolver junto com a sujeira do porão.

Aqui eu deixo exposto o meu sincero pedido de perdão a quem considerar que um dia eu causei algum tipo de prejuízo consciente, e junto disso deixo uma afirmação, que diz que seu dia de amanhã sempre será melhor, sempre.

Transformar a si mesmo é a prioridade, todo o resto pode esperar.

Com gratidão, admiração, respeito, amor e humildade a todos e a tudo,

Sett 

Tudo que me faz mal, deveria me fazer bem




Hoje me deparei com mais de três pessoas que disseram a mesma frase: “isso me faz mal”, e foi o bastante para eu entrar em reflexão.

Oras, tudo aquilo que me faz mal, só faz mal porque ainda não aprendi a transformar naquilo que me faz bem. É assim que cada um deveria pensar, chamando a responsabilidade para si mesmo.

O mesmo ocorre com algumas feministas (não todas) e também pessoas fracas de "espírito" que empurram a culpa nos outros, no caso, os homens, mas se esquecem de chamar a responsabilidade para si mesmos, afinal, os homens nascem das mulheres, e tanto o “gene” ruim quanto o bom são elas que colocam no mundo.

Não se pode dizer que um não-iniciado tenha consciência de suas escolhas e atos, pelo menos não todos.

Um sacerdote e uma sacerdotisa não devem ter outra coisa em seu coração, senão amor, sem exigências mundanas, vaidosas, regras etc. Apenas amor incondicional.

Me lembro de um caso onde uma sacerdotisa realizou um ritual de iniciação "meia-boca" para transmitir uma linhagem sem ensinar verdadeiramente o conteúdo daquilo que transmitia, as consequências foram trágicas. 
A desculpa dela foi: "achei que você já sabia tudo e que não precisava te ensinar", mas o fato é que nem ela mesma sabia o que estava fazendo, e no fundo, seus atos de desdém por aquilo que estava transmitindo (a linhagem) falavam por si, só ela não notava a arrogância própria.

Arrogância tem como etimologia: "chamar para si aquilo que não lhe pertence", também é o caso de médicos que nunca cursaram uma universidade e compraram diplomas, um dia as cagadas vem a tona. Nada pode ser oculto. Mas o que quero dizer com a história verídica da sacerdotisa acima narrada, é que ela "culpava" seus iniciados pelas consequências, sem enxergar a fonte dos problemas, ou pior, sem pedir desculpas à quem de direito e ainda queria posar de exemplo para todos sem corrigir a falha que tinha cometido. Eu não a culpo, ela também foi uma vítima da sociedade e de seus impulsos vaidosos e hoje talvez ela já tenha se redimido em seu coração.

A cultura da culpa e da culpabilidade tem se projetado em nossa cultura como um câncer, pois é sempre mais fácil tacar a culpa no outro. No entanto, somos todos culpados e vítimas ao mesmo tempo, dessa roda da vida que ora nos empurra para baixo, ora para cima, morrendo e renascendo. Não é a toa que as crianças adoram a gangorra. Assim são também com os interesses humanos, quando o ser humano brinca de ser Deus (ou deusa). Isso é muito sério.

Mas o que podemos fazer?

Bem, podemos fazer a nossa parte, não importando se você é mais negativo do que positivo. Posso ser uma pessoa mal humorada e acordar de mal humor todos os dias? Sim, posso, mas minhas escolhas definirão o resto do meu dia e eu posso transformar, é assim que você deve pensar. 

Eu sei, tem horas que desejamos estourar e mandar o outro tomar no C..., então, mande. Não guarde com você aquilo que não é seu, aquilo que "botaram" dentro de você. Não somos responsáveis por aquilo que nos faz perder a paciência, somos responsáveis pelo nosso limite e com o que podemos fazer para esticar esse limite. Mas concordo que tem gente que força as vezes.

Somos feitos para suportar até um certo limite de dores ou dissabores, o resto devemos por pra fora. O que nos cabe fazer é perdoar, o perdão não tem outra função a não ser perdoar. Ao ouvir alguém nos xingar ou nos ofender, chamemos a responsabilidade de nossos atos para nós mesmos, pensando: “até que ponto não percebi que eu estava levando o outro a se encher de mim?” 

Somos parte daquilo que colhemos. Mas sempre tem alguém que ao invés de fazer isso, resolve punir a pessoa que a xingou e, tudo por status ou para proporcionar bem estar consigo mesma. Afastamos de nós pessoas que nos amam, por burrice nossa, por vaidade ou porque temos mais títulos que a outra pessoa e por isso exige-se respeito a toa, sem antes respeitar a si própria. 

Não, o respeito deve ser mostrado primeiro conosco mesmo, desde que, quando desrespeitamos alguém, é nada mais que um reflexo daquilo que estamos fazendo já há algum tempo conosco mesmo. Pessoas são espelhos umas das outras.

Quer uma bobagem maior do que pensar que somos os escolhidos? Quanta estupidez humana, quão pequenos são os seres que pensam assim!! Outra estupidez é viver um mito. Seja o mito da deusa ou de Caim, ninguém pode viver um mito sem obter as consequências do mito. E mito não é real, é exemplo para se refletir, filosofar etc. Viva apenas a SUA realidade.

Então, que mundo deixaremos pros nossos descendentes? Quais lições ensinamos sem perceber? Não queremos ser como aqueles que nos punem. E se erramos, fazemos porque somos induzidos, aprendemos isso com essa sociedade doente.

O perdão é 98% do amor, não pode haver amor de verdade se não há o perdão sincero dentro do coração.


Carregar rancor, de igual forma, é 98% o meio mais rápido para se desenvolver um câncer. Células que transmudam e passam a comer seu corpo de dentro pra fora, ao invés de continuarem com a função original de funcionamento. A saúde é o bom funcionamento de tudo. Quando uma pessoa te pedir perdão, aceite de coração e traga essa pessoa de volta pro seu convívio. Ao afastar essa pessoa você estará "fugindo" do seu aprendizado, pois ambas possuem coisas para aprender uma com a outra. Até as crianças nos ensinam. Se não puder fazer isso, apenas permita que o fluxo bom de todas as coisas siga em frente sem você projetar mais energia negativa, desde que tudo o que você emana pro Universo, ele te devolverá um dia.

Então, olhe bem para dentro de você e veja o que está “comendo” o seu mundo de dentro para fora e transforme isso em seu favor. A equação está na alquimia.

Não force, se esforce para melhorar, pois tudo tem um limite, e até mesmo a corda rompe quando recebe uma pressão muito maior do que poderia suportar e as vezes essa pressão vem de fora, mas você permitiu isso. Tudo está dentro de você, não fora. Esse espaço que está dentro de mim é tão sagrado, que cabe até uma taturana peluda, mas essa taturana não pode queimar o que já é feito de fogo. O fogo é o elemento do Espírito. Quando somos hereges, tudo cabe em nós, todos os deuses, todas as pessoas, em pura harmonia e para sermos exemplo para alguém, devemos mostrar essa atitude porque nenhum(a) líder pode conduzir pessoas se não souber conduzir a si mesmo(a).

Lá fora o mundo já está doente, cabe a você trazer de dentro para fora, aquilo que você tem de melhor, pois ninguém dá o que não tem, mas também nada é impossível de ser transformado e perdoado.

Viva o amor, com amor, intensamente!

Pense nisso!

Tudo que me faz mal, me ensina, eu aprendo, eu transformo, e tudo me faz bem.





quarta-feira, 8 de julho de 2015

A Marca de Caim - Um estudo sobre o exílio



artefato da coleção do autor
Todos os exilados vivem o mito de Caim. Viver o mito de Caim é uma grande forma de se manter agradecido pelas próprias conquistas. Em outras palavras, é um amadurecimento infindável.

Se Deus respeita ou não essa epopeia de Caim, foi Ele quem deu causa, ou não haveria nada para agradecer, portanto Deus é culpado. Todos os demais, veneram e respeitam aqueles que vivem o mito de Caim, pois é uma grande honra. Digo isso porque algumas pessoas interpretam o exílio como um castigo ou punição a ser aplicados, estão enganados.

Quaisquer que sejam as interpretações históricas da bíblia sobre o assunto, em Gênesis 4, 1-24, todas estão sob um paradigma conveniente para ilusão, com alguma ressalva, senão vejamos:

O drama descrito no capítulo supracitado, não exclui a existência dos acontecimentos, porém significa dar-lhe uma dimensão que ultrapassa sua contingência e, mesmo que os acontecimentos não tenham acontecido exatamente como a bíblia menciona, não podemos deixar de notar os signos apresentados e a grande lição que a história exerce sob os filhos de Caim, haja vista que em Le jour de Cain (Paris, 1967), Luc Estang viu na narrativa algo a mais além das entrelinhas e nos faz pensar.

De acordo com o próprio Gênesis, Caim foi o primeiro homem nascido do homem e da mulher, e foi o primeiro lavrador, o primeiro agricultor, e primeiro sacrificador, cuja oferenda não foi aceita por Deus, foi o primeiro assassino, o primeiro revelador da morte pois jamais teria sido visto antes do seu fratricídio, o rosto de um homem morto, e por tanto, foi o primeiro feiticeiro e construtor. Como homem do campo, Caim foi um verdadeiro pagão no sentido literal.

Após a recusa de sua oferenda, ele partiu a procura de uma terra fértil para desbravar os mistérios da fertilidade e das plantações, assim, ele também foi o primeiro errante, o primeiro cigano, e se tornou o primeiro construtor de cidade. Sua importância é total em algumas vertentes de bruxaria tradicional, contudo, as lições apresentadas na história bíblica de Caim haviam sido registradas no mundo pagão, como no caso latino de Remo e Rômulo, bem como Karna e Arjuna no episódio Hindu, e entre Thórólfr ou Ásgerr e Egil nórdicos, e ainda, no antigo testamento, dizem alguns pesquisadores, alegam a ver alguma analogia com Esaú e Jacó. Essas histórias sobre fratricídios são temas de grande discussão no direito penal estudados na faculdade, e são de conhecimento de qualquer advogado.

Assim, as diferenças entre os pastores e lavradores continuam até hoje sob o disfarce cristão X pagão, portanto esse tema de disparidades de vontades e crenças sempre foi regido por códigos religiosos que ditavam a “ética divina” e é bem antigo.

O prélio entre pastores e lavradores também foi tema de aprendizados esotéricos. Se voltarmos no tempo a história mítica revela disputas e fatos entre irmãos e fratricídios muito comuns, como no mito histórico entre os egípcios Seth e Osíris, ou antes disso entre Tamuz e Enkidu sumerianos, os quais os hebreus herdaram os ensinamentos e alguns costumes culturais e religiosos, razão pela qual pode ter surgido o mito de Caim e Abel, totalmente baseado nos mitos Sumerianos.

Ainda temos de considerar que, a bíblia pode ter omitido, mas o primeiro livro de Adão e Eva nos revela que Abel, depois da sua morte reencarnou como o terceiro filho do casal cujo nome era Seti (também grafado como Seth e/ou Sett).

Mas Caim foi marcado por Deus durante o desentendimento que gerou o seu exílio. Deus colocou uma marca em Caim, a fim de que ele não fosse morto por quem o encontrasse.

Nesse contexto, Caim foi também o primeiro homem a se retirar da presença de Jeová e partir, numa infinita caminhada em direção ao Sol levante.

A aventura é de uma grandeza inigualável, sendo a aventura do homem entregue a si mesmo, aquele que não espera as coisas caírem do céu. Isso simboliza que Caim faz suas escolhas, tornando-se deus de si mesmo, assumindo todos os riscos da existência e todas as consequências de seus atos. Caim é o símbolo da responsabilidade humana e é o símbolo nato dos feiticeiros de memória judaico-cristã.

Da mesma maneira que o significado do nome Abel é Vaidade (Barro), o nome Caim significa Posse (dono de si, ter posse sobre si mesmo, escolha-livre arbítrio, aquele que não aceita dogmas).

No simbolismo animal Abel é a ovelha e Caim é o bode, mais uma vez o masculino e feminino interagem. Sua mãe o chamou de Caim porque ele foi a sua primeira aquisição. Alguns mitos dizem que Samael copulou com Eva e nasceu Caim. Samael teria incorporado ou se passado por Adão a fim de possui-la. Outros mitos dizem o contrário, sendo Eva possuída por Lilith e esta teria copulado com Adão, ficando por cima dele e mostrando a supremacia da mulher sobre o homem. De qualquer forma O Espírito pode muito bem possuir tanto homens quanto mulheres e, seria uma arrogância alegar que Lilith só “entra” nas mulheres ou que só as mulheres são vaso Dela. Eva foi criada da costela de Adão e de qualquer forma ambos dependem um do outro e não há razão para discutirmos quem é superior e quem não, pois em igual modo Ambos tiveram sua criação pelas mãos Divinas, não importando qual material foi usado por Deus na criação, pois o importante aqui é a linhagem espiritual de Caim, a linhagem que se fez sangue, que se fez carne e que transcendeu a própria carne.

Uma breve explicação vem informar que Lilith é o verdadeiro Espírito Santo, e essa informação foi omitida pela igreja por muitos séculos. Isso equivale dizer que Caim é descendente legítimo do Espírito Santo, enquanto Abel foi feito somente da carne do homem e da mulher e por isso ele é o Barro, já que não possui espírito. [o pronome possessivo não é puramente ilustrativo].

Deus criou Adão do barro, ele era uma espécie de zumbi até conhecer a maçã. Só depois de comer a maçã é que ele teve seu corpo habitado por um espírito, já que a partir desse ponto é que ele pode morrer, antes disso ele era uma espécie de lama. Percebe-se aqui o tema esotérico revelado.

Adão teria dado a mordida na maçã que Eva lhe ofereceu e em seguida ele fez amor com ela. Parece que Eva não comeu a maçã, pelo menos não antes de Caim nascer e esse é um tema confuso. Eva foi comer a maçã depois que Abel morreu e foi assim que seu terceiro filho se tornou Seth. Assim sendo, Seth é a reencarnação de Abel, é o livramento do barro para a chegada do homem de espírito.  

“Tu me tiveste segundo o desejo e com a assistência divina”, diz Caim à sua mãe. [...] ...Muito cedo compreendi que ele em nada me ajudaria, e que eu não poderia contar senão com minha própria vontade. A maçã é a vontade. A maçã que a serpente seduziu Eva para dá-la de comer à Adão. O tema da maçã já era conhecido em Avalon pelos pagãos. Uma curiosidade conhecida por todo pagão é que o verdadeiro nome da Maçã é Malus sieversii, havendo diversas variedades de Malus. O mundo latino mudou de Malus para Mala porque a palavra Malus era da mesma ordem etimológica para se referir ao mau e a maçã em tempo igual. Tanto o fato se confundiu em alguns textos antigos, pelo qual a maçã e a romã foram igualmente confundidas pelos autores.

Outra curiosidade esotérica é que todos os médiuns (que sofre possessão por transe) são considerados filhos de Caim, porque Caim significa posse-possessão), sendo assim todos os médiuns são feiticeiros e bruxos, independente de tradição transmitida via horizontal (de pessoa para pessoa). Alguns autores afirmam que a marca que Deus colocou em Caim é o próprio dom mediúnico.

Independente do tema de Caim ter cunho judaico, a mítica é a mesma só que teve nascedouro mais antigo, o assunto é sempre o mesmo desde a velha Suméria. Não foi à toa que o tema da descida da Deusa “Inanna” ao mundo subterrâneo sobreviveu até os dias de hoje, e vale lembrar que esse tema também foi promulgado e usado por Gerald Gardner durante a construção de sua religião que contém bruxaria. Como podem ver, os mitos Sumerianos estiveram bem vivos entre todas as épocas e foram usados para os mais diversos propósitos religiosos.

artefato da coleção do autor
Se você parar para analisar, vai ver que o tema de agricultura e fertilidade está sempre presente, assim como o tema de nascimento, morte e renascimento (ou reencarnação) estão igualmente. Para toda religião, culto, seita ou tradição espiritual há um crédito maior de poder no mundo espiritual, ou seja, o tema do poder divino. É por isso que não cabe acreditar que tudo acaba quando morremos, uma vez que se acredita (dar-se crédito) que existe um Deus que mora num mundo espiritual de onde viemos e pra onde voltaremos. Aqui o tema se liga ao eterno ciclo morte-renascimento, sendo que, em algumas irmandades bruxas, ensina-se que em vida devemos aprender a sermos mais virtuosos e nos livrar dos vícios, do barro, a fim de subirmos as escadas pra lá de onde caímos, o céu, o paraíso, a montanha dos vitoriosos, o castelo da dama Fortuna, em fim, chame-o como quiser. O tema da queda de Lúcifer (O anjo Portador da Luz) refere-se ao tema da reencarnação, onde nosso espírito teria caiu do Céu e reencarnou (tomou carne-forma física-matéria) aqui na Terra.

Mas Caim não pode morrer, diz os textos sagrados, isso equivale dizer que ele não pode sofrer a verdadeira morte, aquela que “acaba” com tudo pra sempre e por isso é condenado à voltar a vida (reencarnação). Sendo assim tomamos a morte como uma mera passagem de ida e volta, não menos importante na trama divina.

Caim é do espírito eterno e as longas viagens desse espírito é um subir e descer e subir novamente entre o céu e a terra.

Em Luc Estang, 88, Caim diz a sua mãe: “Sabeis que eu tive de conquistar por mim mesmo tudo o que vós me atribuís: o ardor e a rudeza, a força e a obstinação”.

O que Caim desejou foi acrescentar à terra de Deus, o fruto do trabalho do homem, a fim de ser verdadeiramente o senhor de seus atos, ele diz: “sonhei em reconciliar a terra com Deus”. Mas parece que até hoje Deus virou as costas e não está nem ai pra ele.

Caim seguiu desejando construir uma cidade que seria uma manifestação ainda melhor dos feitos humanos do que a terra cultivada. “Eu via a cidade como uma outra lavoura, como uma outra semeadura, como uma nova messe”. Dessa forma o trabalho dos bruxos não acaba nunca, sempre há uma nova semeadura, ciclo sem fim, ou pelo menos não até conciliar a terra com Deus, e Ele aceitar a reconciliação.

É como um despertar da terra fora de si mesma, Caim faz o trabalho do despertar de sua elevação vertical à imagem do homem, pelo homem, que assim estabelecia sua própria soberania. Suas muralhas teriam circunscrito o espaço onde ele nada esperava de Deus. Em verdade, Deus não tinha poder na cidade de Caim, ou pelo menos não exercia influência ali.

A cidade, prolegômeno, em princípio, de quase todo futuro ateísmo, digo quase pois se não houvesse o politeísmo, outros deuses, outras religiões, outras culturas, etc, seria total o ateísmo.

É interessante saber que o gnosticismo possui uma mítica sobre como Deus se tornou Deus. Saclas seria seu nome enquanto “O Demiurgo” e ele era filho de Sophia. Tendo nascido defeituoso, foi lançado para longe dos deuses do Primórdio, no espaço onde se viu sozinho, sem seu par perfeito, resolveu criar o que conhecemos como ordem natural da vida, mas nem todos os seres humanos possuem espíritos da etnia de Saclas. Alguns possuem etnia espiritual da família de Lilith, os quais remontam o tema dos Guardiões, os Nephilins, os quadrantes da terra e sua família de deuses mais antigos, como no caso de Caim e seus descendentes.

Dessa maneira o ciclo vida e morte foi dado aos humanos de todas as descendências espirituais, sendo forçados a conviverem juntos num único planeta, evoluindo ou não, progredindo ou não, foram forçados a subir e descer num ciclo sem fim até atingir um nível onde não seria mais preciso reencarnar, em outras palavras, o tema da queda perderia importância.

Talvez esse seja o único ponto onde não usamos o livre arbítrio, uma vez que, desde nossa criação, nos foi imposto esse ciclo, esse vai e vem. Ao fundir-se com um deus, você se torna um deus novo com seu par perfeito. O tema não é novo, cada estrela no universo é um Sol e cada Sol possui sua própria galáxia.

No mundo ordinário, não nos foi permitido transitar “ainda” entre uma galáxia e outra, porque a NASA ainda não descobriu um método para isso. Se um dia isso for possível, saberemos se há realmente vidas como as que conhecemos, em outros lugares do espaço, mas por ora, limitemos à nossa Terra-Mãe, à nossa Lua e ao nosso Pai Sol.

Voltando ao tema de Caim, Deus não aceitava de bom grado os sacrifícios do lavrador e desse sonhador de cidades. E Caim não podia aceitar ser o mal-amado de Deus. Estava pronto para qualquer renúncia, se ele, de início, aceitasse. Por pouco amável que fosse, era dessa maneira que importava à Caim em ser amado. Mas Deus não recompensava seu escarniçado trabalho.

O que Caim deplorava, não era o fato de Abel ter tantas vantagens, mas sim o fato de Caim não ter nenhuma!

Então Caim se revoltou por todos nós, por todos aqueles que não aceitam o mistério da predestinação. Esse papo de que nascemos predestinados, as crenças limitadoras e falsas que temos sobre nós mesmos, a predestinação que divide os homens em rejeitados e eleitos, todos aqueles que não compreendem o desprezo de Deus pelas grandezas terrenas e sua predileção pelos humildes.

De tal modo, Caim orgulhoso de si, afirmou seu próprio valor, seu esforço, sua autoestima e renunciou a Deus, e é a partir daqui que começa o seu exílio.

Caim partiu na condição de errante junto com os seus pares, como quem parte em busca de um futuro a ser indefinidamente construído. Diz Caim: “Partiremos para o deserto dos homens, e que os homens, inumeravelmente, povoarão. Nós nos guiaremos pela aurora sempre renovada... E será por não nos determos em parte alguma que estaremos sempre em toda parte. Nossa vida errante nos permitirá medir a terra e, ao mesmo tempo, nós a edificaremos”.

artefato da coleção do autor
Caim parte, em busca do devenir do homem fora da presença de Jeová. Entretanto, foi-lhe preciso matar o irmão (o aspecto do barro em si mesmo) e precipitar a hora da morte. A fim de liberar-se, chegou ao extremo do crime. A verdadeira morte vem a ser aquela em que se é obrigado a dormir sem jamais poder despertar. Ele impôs brutalmente, diante dos olhos da primeira das mães-do-barro: Temor antigo, castigo misterioso, ó morte! Eis-te pois revelada! Tens o rosto de todos nós, sob a máscara de Abel, e por tua causa nós não nos diferenciamos dos animais.

No sentir de Adão e Eva, a morte é o último fruto da árvore da sabedoria; diante dos despojos de Abel, Adão exclamou: Aqui, neste instante, nós esgotamos o sabor ao fruto da sabedoria; mais do que nunca ele é amargo. Entretanto, ele diz a Eva: Fomos nós que transmitimos o gérmen da morte ao corpo de Abel. Eva então replica no auge de sua revolta: Ah! É como se ele tivesse aberto em mim uma brecha: meus filhos jamais terminarão de matar-se uns aos outros. Todavia, Temec, procurando justificar seu marido Caim, diz: Que triunfe a vida, ainda que o preço seja a morte.

É verdade que a morte inelutavelmente haveria de sobrevir, porquanto era o castigo do pecado original.

O erro de Caim, foi na realidade, ter-se adiantado aos desígnios de Jeová. Ele acrescentou novo mal ao mal cujo castigo é a morte. Caim foi o iniciador da morte e ele mesmo não poderia morrer.

Desde então, sobre a fronte de Caim, e de todo homem, todos poderão ler: Perigo de morte! Embora devam notar nessa advertência, o signo protetor que designa a criatura divina, não um estigma infamante, eis a marca dos bruxos.

O signo que me reprova me protege, diz Caim. Na verdade, o Deus concede-me a graça de que meu crime intimide os vingadores, porque o crime deles contra mim terá de ser expiado sete vezes!

Desde então o corpo passou ao pó e o espírito passou aos céus. O homem passou então a não afrontar nada mais de Deus a não ser a sua ausência. Resta-lhe, porém, sua própria presença de homem a afrontar, como relembrou Temec, a impiedosa esposa: Tua própria presença, Caim! Doravante, na sucessão dos homens: Caim presente em cada um deles. No espelho de sua consciência, todo homem refletirá os traços de um Caim.

Como disse Adão: Meu filho Caim é essa segunda parte de mim mesmo, que não acabava mais de se projetar. Vós, que o seguis, sabei-o: sois o enxame de minhas ilusões.

Nesse sentido, encontramos forçosamente uma comparação na tradição grega, pensado para ter equivalência grega do desejo de Caim em Prometeu, que desejou conquistar para a humanidade um poder divino; liberá-la de uma dependência total, atribuindo-lhe o fogo, princípio de todas as mutações futuras, quer seja o fogo do espírito, quer seja o fogo da matéria. Tal como Prometeu, Caim é o símbolo do homem que reivindica sua parte na obra da criação.

Por Seth Ben Qayin